1.2.10

BM cobra explicações de oficial que pede segurança no Rio Grande do Sul

Comando-geral da corporação não gostou das declarações de tenente-coronel que criticou o "prende e solta"

Sérgio criticou a impunidade, se disse inseguro e cobrou ação do Judiciário e do Legislativo - Diego Vara

Sérgio criticou a impunidade, se disse inseguro e cobrou ação do Judiciário e do Legislativo
Foto:Diego Vara

 

O desabafo de um oficial da Brigada Militar indignado com a falta de segurança resultou em um debate sobre a luta contra o crime no Rio Grande do Sul. A entrevista em que o tenente-coronel Sérgio Lemos Simões manifesta inquietação com os índices de criminalidade e cobra ação de juízes e deputados, publicada por Zero Hora no sábado, motivou centenas de comentários de leitores e manifestações de autoridades.
Hoje, porém, o comandante da BM, coronel João Carlos Trindade, deverá determinar ao oficial que suspenda as declarações contundentes.
A reação à entrevista concedida a ZH surpreendeu o próprio tenente-coronel, comandante do 11º Batalhão de Polícia Militar (BPM), com atuação na zona norte da Capital. Ele revela ter ficado acordado até a madrugada de ontem acompanhando os comentários de leitores publicados no site zerohora.com.
– Foi incrível, teve mensagem até dos Estados Unidos. Muita gente dizendo que eu falei o que elas gostariam de falar – afirmou o militar.
Antes do final da manhã, surpreendeu-se com a cifra de quase 300 opiniões registradas na internet – até o final do dia, se aproximariam de 500. Ao longo do sábado, passado na praia, recebeu cumprimentos até dos vizinhos. Foram mais de 50 ligações em seu celular – entre elas, uma do secretário estadual de Planejamento e Gestão, Mateus Bandeira.
– Achei muito bom que a manifestação do tenente-coronel tenha gerado esse debate, que ele tenha falado com tanta clareza e honestidade – sustentou Bandeira.
Como consequência, o secretário pretende convidar o oficial, nos próximos dias, para discutir de que maneira sua pasta pode contribuir com iniciativas relacionadas à segurança pública. A transparência de Sérgio Lemos Simões, que, dizendo falar como cidadão, criticou a facilidade com que criminosos presos pela corporação acabam soltos por ordem judicial e confessou não se sentir seguro em Porto Alegre, ainda mereceu elogios do coordenador do Fórum do Ambiente Institucional e Regulatório da Agenda 2020, Everton Marc.
– O desabafo do comandante é o mesmo que a sociedade gostaria de fazer, mas não tem nem onde, quando ou como fazê-lo – afirmou.
Apesar da onda de apoio ao militar, o comandante da BM deverá conversar com o subordinado e pedir que evite dar novas declarações públicas que tenham conteúdo potencialmente explosivo.
– O membro de uma corporação deve ter cuidado ao falar porque poder gerar desconforto com as demais instituições – observou o comandante (leia entrevista na página ao lado).
Ontem à tarde, o tenente-coronel mantinha a esperança de que a contundência de suas declarações ajudasse a deflagrar um processo de discussões mais profundas sobre o tema da segurança. Sobre a intenção do comando de evitar novas entrevistas polêmicas, resumiu:
– Vou acatar o que o comando determinar.

As reações

ZAÍRA WESTPHALEN DA COSTA, PROFESSORA, SANTA MARIA

Internautas e leitores de Zero Hora comentam a polêmica entrevista publicada na edição de sábado

‘‘Traduz, fielmente, tudo os que não têm voz sentem. E o deputado Ivar Pavan, como sempre, em lugar de buscar soluções, transfere a responsabilidade para desgastar, ainda mais, o governo que não é do PT.”

REGINA SANTOS DA SILVA, FUNCIONÁRIA PÚBLICA, PORTO ALEGRE

‘‘Aviltante é o jogo de empurra-empurra entre os poderes Legislativo e Judiciário, responsabilizando os policiais.”

ANTONIO BRASIL MEDEIROS SILVA, PROFESSOR, PORTO ALEGRE

‘‘Clara, coerente, lúcida e, acima de tudo, tradutora do pensamento das pessoas de bem, permanentemente ameaçadas e sofrendo a violência dessa malta de desocupados que dominam as grandes cidades sob o beneplácito daqueles que deveriam proteger a sociedade.”

LUIZ ALBERTO ZEILMANN, ADVOGADO, PASSO FUNDO

‘‘Demonstra a insatisfação do cidadão comum com a segurança pública do Estado. Todavia, jamais poderia, tal opinião, ser de uma autoridade policial. O tenente coronel sabe que existem milhares de mandados de prisão em mãos da polícia sem serem cumpridos e se isso fosse feito o Estado não teria local nem condições de abrigar os presos.”

DELAMAR MOREIRA DOS SANTOS, PILOTO, PORTO ALEGRE

‘‘Agora só falta o comandante ser exonerado ‘por questões administrativas’ como ocorre com uma ou outra autoridade que se manifesta de forma corajosa.”

JEFERSON LUÍS REZENDE, ADMINISTRADOR, GUARAPUAVA (PR)

‘‘Refletem exatamente como nos sentimos também no Paraná e, certamente, em qualquer ponto do Brasil. É mais do que óbvio que precisamos de uma grande operação, inspirada no que foi realizado em Nova York, por exemplo. Precisamos de novas leis, de um novo Código Penal, de um novo Estatuto da Criança e do Adolescente e de salários dignos para os policiais.”

MARCELO, PORTO ALEGRE

‘‘A análise do entrevistado é simplória e reducionista. O ponto de vista da polícia é importante, não há dúvida quanto a isso, mas existem ‘n’ fatores que explicam a criminalidade e que fogem ao desabafo de apelo fácil e demagógico do senhor Sérgio.”

JOÃO PEDRO DE MOURA JARDIM, PORTO ALEGRE

‘‘Até quando vagabundos terão o direito de circular livremente entre nós, cidadãos que cumprimos a lei, que pagamos impostos, trabalham e temos famílias? Relações amorosas, familiares e de amizade são destruídas em segundos por delinquentes impunes, que vagam entre nós, na certeza da impunidade. O que está acontecendo, será que a marginália precisará começar a invadir os palacetes e os condomínios fechados dos legisladores para que se tomem providências? Estamos em um declínio acelerado.”

JORGE ALFREDO, PORTO ALEGRE

‘‘O coronel, adentrando em uma seara que não é a sua especialidade – legislar –, pretende reduzir a maioridade penal. Os que defendem (a redução) esquecem que isso não vai resolver. Pior, não vai nem mesmo diminuir o problema. Vai é criar outro. Se for reduzida para 16 anos, por exemplo, serão aliciados para o crime quem tem 15, 14 anos.”

LUIS ANTONIO DE LELIS GOMES BARBOSA, EMPRESÁRIO, ROSÁRIO DO SUL

‘‘A insegurança é geral e vejo que a postura dos poderes terá de mudar, porque não dá mais para ver marginal sendo preso e solto no mesmo dia depois de mais de oito reincidências pelo mesmo delito.”

 

Zero Hora

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