Responsável pela morte de quase dois mil brasileiros, a influenza A (H1N1), mais conhecida como gripe suína, deve contaminar mais pessoas e provocar um número maior de vítimas em 2010. Apesar de não ter divulgado estimativas, o Ministério da Saúde confirma a possibilidade de a doença avançar com mais força no território nacional nos próximos meses, sobretudo a partir de abril, quando as temperaturas começam a cair na maioria das regiões. A Organização Mundial da Saúde (OMS)
(1) tem posicionamento similar ao do governo do Brasil: é prematuro declarar que a pandemia da nova gripe chegou ao ápice. Até o fim de novembro, mês da aferição mais recente com os dados da enfermidade, exatas 27.850 infecções foram detectadas no país (veja quadro).
Mesmo com as perspectivas negativas para o país, o comerciante Edson Rocha, 52 anos, que contraiu a doença em junho, coleciona motivos para comemorar no último dia de 2009. "Foi a gripe mais forte que tive. Fiquei quatro dias sentindo febre e fortes dores nas articulações. Somente no quinto dia decidi procurar um médico. Agradeço a minha filha, que insistiu em buscar ajuda profissional, e ao remédio (cloridrato de moxifloxacino), que me curou. Aliás, minha vida custou R$ 149", diz, referindo-se ao valor do medicamento.
Depois de uma semana de repouso em casa, a pedido do médico, Edson mudou hábitos e começou a difundir informações sobre a gripe. %u201CPassei a lavar as mãos com frequência e comprei álcool em gel para me proteger.%u201D Proprietário de uma empresa que fabrica placas e carimbos, o comerciante decidiu imprimir 50 cartazes de plástico com orientações para evitar o contato com o vírus. "Aproveitei que a UnB (Universidade de Brasília) havia me encomendado um material e mandei fabricar do meu próprio bolso esses impressos. Já distribuí no restaurante onde almoço aqui em Brasília e no Piauí, onde tenho raízes", afirma, lembrando que gastou R$ 795 com a iniciativa. Em uma comemoração bem brasileira, Edson festeja o ano-novo. "Por tudo o que passei, quero brindar 2010 com uma cerveja bem gelada."
As previsões de recrudescimento da gripe suína por parte da esfera pública não são as mesmas de especialistas ouvidos pelo Correio. Professor de doenças infecciosas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Edimilson Migowski condiciona o controle da enfermidade ao cumprimento do plano estabelecido pelo Ministério da Saúde. "Se o ministro (José Gomes Temporão) conseguir colocar em prática o que planejou, o país não enfrentará problemas", frisa. Na avaliação do infectologista, o fato de a população estar bem informada é positivo. "Por conta dessa mudança de hábito (lavar mais as mãos), houve uma grande redução de infecções hospitalares e de doenças contagiosas como conjuntivite e diarreia, por exemplo", observa.
VacinasDo crédito suplementar de R$ 2,168 bilhões, aprovado em outubro pela Medida Provisória (MP) 469, R$ 1,06 bilhão vai ser usado na compra de vacinas para proteger a população. A um custo de R$ 447,7 milhões, o governo federal fechou a compra do primeiro lote de soluções em novembro. Serão 40 milhões de doses a serem entregues no primeiro semestre de 2010. A expectativa é que a vacinação ocorra entre março e abril, antes da chegada do frio. Uma coisa é certa: não haverá vacina para todos. Por isso, o ministério precisa delimitar o público-alvo, ainda não definido. Um dos grupos a serem beneficiados é o das gestantes. Das 1.632 mortes causadas pela gripe, 156 (28,5%) estavam grávidas.
A pasta ainda vai adquirir vacinas produzidas pelo Instituto Butantan, único produtor na América Latina, e também por meio do Fundo Rotatório da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). A quantidade da nova remessa deve ser anunciada pelo ministro José Gomes Temporão em janeiro. O governo diz ter estoque de 6,6 milhões de tratamentos, sendo 421 mil kits prontos (encapsulados) e outros 6,2 milhões em matéria-prima para ser dissolvida.
Com dez óbitos e 668 casos confirmados de gripe A, a Secretaria de Saúde do DF não espera aumento de infecções no próximo ano. %u201CA disseminação da gripe suína obrigou os profissionais a se prepararem para o certo caos causado pela doença nos hospitais públicos e privados. Se somarmos isso à disponibilização da vacina, ao trabalho conjunto das secretaria de educação e de saúde e ao bom nível de esclarecimento da população, acreditamos que não haverá pico da enfermidade em 2010%u201D, diz o chefe do núcleo de controle de doenças imunopreviníveis da Secretaria de Saúde do DF, José Edson Pellicano.
1 - Mundo em alertaNa terça-feira, a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, afirmou que é muito cedo para declarar que a pandemia de gripe suína chegou ao ápice em todos os continentes. De acordo com ela, ao contrário dos Estados Unidos, Canadá e alguns países do hemisfério norte, onde foi registrado o maior pico de infecções, nem todas as nações atingiram seus mais elevados índices de casos, uma vez que o inverno mal começou.
» Carnatal teve como efeito colateral o aumento do número de casos suspeitos de gripe suínaAo que tudo indica, cerca de 400 pacientes do Rio Grande do Norte que apresentaram sintomas compatíveis com os da influenza A e tiveram as amostras de secreção encaminhadas ao Laboratório Evandro Chagas, em Belém (PA), provavelmente vão entrar 2010 sem ter certeza se contraíram a gripe suína. Nos últimos dias do ano, a instituição responsável pelos exames dos estados das regiões Norte e Nordeste esteve superlotada e, por esse motivo, deu preferência aos casos de pacientes que necessitaram de internação ou locais que apresentaram surto da doença (presídios, por exemplo).
A subcoordenadora de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde, Juliana Araújo, explica que os pacientes que apresentam sintomas compatíveis com a gripe são medicados independentemente do resultado. "O mais importante é o exame clínico realizado pelos médicos. Se os profissionais acharem que o paciente deve ser tratado com a medicação adequada e restrições que a doença pede, assim é feito, mesmo que o resultado do exame não tenha chegado", disse.
O Rio Grande do Norte contabiliza 90 casos confirmados por exame, 12 óbitos e 1.005 notificações desde o início da pandemia. O estado registrou um aumento significativo no número de casos confirmados e mortes em decorrência da gripe no fim de novembro e início de dezembro, após o Carnatal - maior micareta do país, que reúne quase um milhão de pessoas em quatro dias de festa.
Nos primeiros sete dias de dezembro, o maior hospital de doenças infectocontagiosas do Rio Grande do Norte, o Giselda Trigueiro, em Natal, registrou 99 casos suspeitos. O número foi quase igual ao total notificado em novembro: 104. Os hospitais da rede privada da capital potiguar também constataram aumento no número de pessoas na urgência após a festa.
Como o vírus vai se comportar em 2010 entre os potiguares, Juliana Araújo disse que ainda é cedo para saber, já que a doença só chegou ao estado no fim de abril. Mas, para ela, o futuro da influenza A é praticamente certo. "A previsão é de que essa gripe se torne uma gripe comum. O tempo que vai levar para isso ocorrer, contudo, não podemos prever", comentou.
RealidadeUma forte dor no peito acompanhada de cansaço e uma leve coriza levaram Ney Lopes Júnior, que é vereador em Natal, ao pronto-socorro. Os sintomas não deixaram dúvidas e a afirmação dos médicos apenas confirmou as suspeitas do paciente. "A gripe suína está na mídia e foi por influência da imprensa e da sociedade que resolvi procurar logo o hospital. Por isso tornei público meu caso e faço um alerta às pessoas: não demorem para procurar ajuda especializada, porque a gripe suína é uma realidade e pode atingir qualquer pessoa", alerta.
Ouça trecho da entrevista com o professor de doenças infeciosas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Edimilson Migowski
Correio Braziliense