OS GAFANHOTOS
Fosse hoje, o gafanhoto não reclamaria da escassez de verde em Porto Alegre
Crédito: Chirivino / cp memoria
Correio do Povo do dia 1 de novembro de 1909 noticiava:
Entrevista de um reporter do Correio do Povo com um gafanhoto
Correio do Povo, 31 de julho de 1906
Reporter - Bom dia.
Gafanhoto - Bom dia.
Reporter - Peço-lhe mil perdões por vir incommodal-o ainda tão cedo, mas sou reporter de uma gazeta desta cidade e muito agradecido ficaria si me désse a honra de dois dedos de prosa...
Gafanhoto - Estou ás suas ordens.
Reporter - Sim... mas é que temo importunal-o: o senhor deve estar fatigadissimo da viagem e, provavelmente, assim encarapitado nesse fio telephonico, talvez passasse mal a noite...
Gafanhoto - Não faça cerimonias. A viagem não me fatigou, como suppõe: nós estamos acostumados a grandes percursos. Talvez o senhor não faça uma idéa de quantas léguas comemos nós por hora.
Reporter - Tambem comem leguas?!
Gafanhoto - Sim, quero dizer: vencemos... Nada menos de seis!
Reporter - Ah!
Gafanhoto - Quanto á cama que por acaso me tocou, essa, com franqueza, não foi das mais commodas. Este fio de telephone a que nos viemos abrigar, em frente da sua janela, eu e alguns milhões de companheiros, tem, entre outras desvantagens o inconveniente de ser muito frio. Ora, si o senhor já leu alguma cousa sobre a nossa vida, há de saber que somos amantes extremados do calor.
Reporter - Sim, sei. No tempo em que eu dava o Terceiro Livro, li isso uma vez. Até sei mais: quando, em uma região em que estão os gafanhotos, o frio cae, os senhores logo armam "tempo quente".
Gafanhoto - E nos pomos ao fresco. É isso mesmo.
Reporter - Pois sinto devéras a noite que passou... Podia ter batido á janella...
Gafanhoto - Obrigado, não valia a pena. Demais, são cavacos do officio: quando uma creatura qualquer deixa a sua patria e os confortos do seu lar para correr o mundo, fica sujeita a soffrer uma infinidade de contra-tempos. É a sina de todos os que viajam.
Reporter - E para os que viajam assim desabrigados, no ar, os contra-tempos devem ser mais pezados...
Gafanhoto - Com effeito.
Reporter - Eu lhe peço que não queira mal a Porto Alegre por não ter hospedado o senhor e os seus dignos companheiros com o conforto a que têm direito tão illustres visitantes. A minha terra ainda é muito escassa em commodos, e os melhores que ha por aqui estão sendo emplumados para receber o Penna, que, como se sabe...
Gafanhoto - Sim. Soube em caminho que o Affonso Penna tambem vem ao seu Estado.
Reporter - E'' também vem.... Por signal que se preparam grandes festas para o acolher.
Gafanhoto - Ah!
Reporter - E por falar isso: que achou a recepção que lhes fizeram aqui?
Gafanhoto - Uma repetição da que tivemos em todas as localidades do seu Estado: grande terror, gente por toda parte, de bocca aberta, formidavel, zé-pereira, batuque, pancadaria em latas de kerozene, tiros, berreiro, foguetorio...
Reporter - E, diga-me: esse barulho imcommóda, devéras, os senhores.
Gafanhoto - Não deixa de incommodar seu tanto ou quanto, principalmente os foguetes que, felizmente são mais caros que as latas de kerozene. Os foguetes quanto, ao arrebentarem, nos arrebentam, incommodam. Entretanto, essas cousas não modificam em nada o nosso modo de pensar, nem o nosso desideratum. Como deve saber, não temos deixado folha sobre folha. Cortamos tudo pela raiz.
Reporter - E'' bem verdade.
Gafanhoto - Demais, isso entra na lei das compensações; aqui nos enxotam, entretanto, em outros logares do mundo, mórmente na Africa, nos consideram um manná, uma ambrosia, um artigo de primeira ordem, uma especialidade. Quando chegamos a um desses logares, o povo exulta numa festa indescriptivel, numa alegria verdadeiramente... selvagem. Não há alma que não cante, labios que não riam, mãos que não batam palmas, coração que não se extasie, bocca... que não se encha d''agua. Disputam-nos, armam guerras por nossa causa, compram-nos a peso de oiro e...
Reporter - E os adoram?
Gafanhoto - Não, senhor: comem-nos.
Reporter - Oh!
Gafanhoto - Comem-nos assados, fritos, ensopados, seccos e molhados, com azas e sem azas, em mingaus, em sopas, em pasteis, em mayonaises, em mostardas, em conservas, em sorvetes, em almondegas, no diabo! Durante o tempo em que andamos por essas paragens gaphanhatophagas, nós somos o prato do dia, a novidade, o manjar de primeira, o quitute, o filé, o petisco. O preço da carne chega a baixar, para ver se ha compradores. Qual nada. Ninguem compra carne.
Reporter - Talvez seja por isso que os senhores não gostam muito da Africa...
Gafanhoto - E'' provavel.
Reporter - E que tal achou Porto Alegre?
Gafanhoto - Desculpe que lhe diga, com a minha franqueza de gafanhoto: muito rapado. Meia duzia de chacaras sem arvoredo, algumas pracinhas plantadas com muita parcimonia, varzeas sem pasto, hortaliças muito miches. Eu até disse aos companheiros que por taes vegetações não valia a pena terem feito tanto barulho quando chegámos.
Reporter - Foi muito barulho?!
Gafanhoto - Muito. E houve até, nessa azafama de nos afugentarem cousas interessantissimas.
Reporter - Sim?
Gafanhoto - Pois não. Olhe: quando passavamos no Menino Deus, na altura da rua dos Pretos Forros, um cidadão baixo e gordo, no intuito de defender o seu jardimzinho, puxou do revolver, virou a cara, e deu cinco tiros para o ar. Pois meu caro senhor, no jardimzinho só havia duas begonias e um pé de mangericão e outro de arruda... O senhor ri-se? Na Azenha, um portuguez desabou pau em penca sobre umas latas de kerozene por causa de um pé de "catinga-de-mulata". Uma miseria, meu amigo. Porto Alegre, no que diz respeito a plantações, está a pedir misericordia. Misericordia e sementes.
Reporter - E'' de lastimar.
Gafanhoto - Muito de lastimar. Entretanto, não deve ficar triste com essa novidade: no seu Estado ha logares muito florescentes.
Reporter - Havia.
Gafanhoto - Sim, diz bem, havia... quando lá chegámos. Logares onde uma creatura se sente a gosto.
A grafia de época está
preservada nos textos acima.
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