História - História da América
DO POVOAMENTO ÀS CIVILIZAÇÕES PRÉ-COLOMBIANAS: A AMÉRICA DOS AMERICANOS
Nosso bloco temático tem um título muito parecido com aquele que foi o slogan da chamada Doutrina Monroe, doutrina política que marcou a atuação dos Estados Unidos no início do século XIX: A AMÉRICA PARA O AMERICANOS. Infelizmente, porém, até hoje, e estamos em 2006, nem o slogan da doutrina norte-americana, nem o título do nosso bloco correspondem à realidade. A América nem é dos americanos e nem para os americanos. É para entender esse processo de dominação do continente americano que estamos aqui. Vamos ao trabalho e espero que ao final dele tenhamos ao menos alcançado o nosso maior objetivo que é a conscientização de vocês, futuros colegas, professores de Historia e, quem sabe, futuros pesquisadores.
POVOAMENTO E DIVERSIDADE DOS POVOS AMERICANOS
Nesse início de estudos vamos conhecer algumas novidades" acerca da formação do Homem Americano que estão disponíveis na mídia mas que, infelizmente não chegam a chamar a atenção dos leitor comum. É interessante descobrir como as tradicionais teorias a respeito do Homem Americano e da sua chegada estão aos pouco sendo questionadas e diria mesmo arrasadas pelas novas pesquisas. Vou gostar muito de apresentar vocês a Luzia, nossa mulher pré-histórica, mergulhar nas cavernas de São Raimundo Nonato, no Piauí, conhecer o parque criado pela antropóloga Niéde Guidon, uma lutadora pelo reconhecimento da pré-história do homem brasileiro. espero que você goste tanto desse material que, nas suas próximas férias vá até o Piauí. Me convide que eu sou capaz de ir junto
AS PRINCIPAIS TEORIAS CIENTÍFICAS DO SÉCULO XIX E A HISTORIOGRAFIA
Ainda estamos longe de compreender completamente a história do povoamento das Américas. Como teriam os primeiros imigrantes chegado aqui? Qual foi o tamanho dos contingentes de migrantes? Quanto tempo demorou a ocupação de todo o continente? Apenas estudos futuros poderão responder essas e muitas outras questões. Pesquisadores do Setor de Antropologia Biológica do Museu Nacional e seus parceiros, cientistas de outras instituições nacionais e estrangeiras, estão empenhados em conduzir estudos visando elucidar as muitas dúvidas que permanecem. Entre eles estão as datações por C14 e os testes de DNA antigo, bem como modalidades de análise dos materiais arqueológicos, com o intuito de construir um panorama o mais completo possível da história de ocupação humana do continente americano.
Um dos debates mais intensos sobre o surgimento do homem americano diz respeito ao tempo de sua chegada ao continente. Até meados do século passado, os achados arqueológicos que ofereciam dados mais antigos sobre a presença humana nas Américas derivavam de materiais encontrados no Novo México, EUA. Trata-se da cultura Clóvis, assim batizada com o mesmo nome do sítio arqueológico em que foram encontrados artefatos produzidos por pessoas que habitaram a região entre 10.500 e 11.400 anos atrás. Esse grupo era formado por caçadores de grandes animais, tais como mamutes e mastodontes, que eram abatidos por pontas de pedra lascada bastante afiadas, cuja tecnica de produção permitia que fossem colocadas na ponta de um cabo.
Mas a teoria de que a cultura Clóvis era a primeira e mais antiga da América, aos poucos, foi perdendo espaço diante das novas descobertas arqueológicas que atestaram uma presença humana mais remota em algumas regiões fora da América do Norte, tornando mais acirradas as discussões sobre a origem do homem em nosso continente. No final dos anos 90, trabalhos publicados por cientistas norte-americanos sobre escavações realizadas na América do Sul indicavam datas de ocupação de períodos contemporâneos aos de Clóvis.
Entre estes trabalhos e escavações podemos citar:
No sítio de Monte Verde explorado pelo arqueólogo Tom Dillehay, ao sul do Chile, foram encontrados vestígios arqueológicos que sugerem uma presença humana há 12.300 anos.
Os estudos da pesquisadora Anna Roosevelt sobre Pedra Pintada, sítio localizado na cidade de Monte Alegre, Pará, indicam a ocupação do homem na floresta amazônica por volta de 11.300 anos atrás.
Em Taima-Taima, sítio venezuelano, há indícios de presença humana que remontam a 15 mil anos.
Na Argentina, nos sítios de Piedra Museo e Los Toldos, existem vestígios humanos de aproximadamente 13 mil anos.
Os sítios de Tibitó, Colômbia, e os de Quebrada Jaguay e Pachamachay, no Peru, possuem datações antigas de até 11.800 anos.
No Brasil, em Lapa do Boquête, Vale do Peruaçu, e em Lapa Vermelha e Santana do Riacho, Lagoa Santa, todos estes em Minas Gerais,
Boqueirão da Pedra Furada, São Raimundo Nonato, Piauí, foram encontradas evidências remotas, anteriores a 10 mil anos.
RÉ-HISTÓRIA DO BRASIL
Ainda é muito difícil estabelecer um quadro global e coerente da pré-história do Brasil. É também um desafio frustrante para os pesquisadores porque o período alcançado e o espaço compreendido é gigantesco, o que dificulta qualquer projeto de pesquisa. São quinhentos séculos para investigar e um território que vai da Amazônia aos pampas, do Nordeste ao Pantanal.Como se tudo isso não fosse suficiente, ainda tem que se preocupar com o fato de que, como as escavações e pesquisas arqueológicas só começaram a partir de 1965, muitos dos sítios arqueológicos já haviam sido destruídos.
Não se sabe com certeza quando o homem chegou à América, embora a estimativa oficial seja de aproximadamente doze mil anos atrás. Esta datação tem sido questionada ultimamente por novas datações e teorias. Existem indícios ainda não comprovados de que os paleoíndios possam ter chegado ao Brasil há aproximadamente 50 mil anos e talvez tenham vindo por via marítima, depois de cruzar o Pacífico. De qualquer maneira durante a transição entre o período Pleistoceno e Heloceno, boa parte do território hoje brasileiro já estava ocupado por grupos de caçadores e coletores pré-históricos.
Esses grupos coletores foram divididos pelos arqueólogos em tradições de acordo com os restos de sua cultura material. Observe o quadro abaixo com as características destas tradições:
TRADIÇÕES LOCALIZAÇÃO TRAÇOS CULTURAIS
NORDESTE NORDESTE E CENTRO-OESTE INDÚSTRIA LÍTICA REFINADA; PINTURAS RUPESTRES
AGRESTE NORDESTE E CENTRO-OESTE ARTES DA GUERRA
IBICUI BACIA DO RIO URUGUAI CAÇADORES, ENFRENTAVAM ANIMAIS DA MEGAFAUNA COMO O PREGUIÇA GIGANTE MEGATÉRIO
HUMAITÁ ESTADO DE SÃO PAULO
Não é fácil estabelecer um vínculo preciso entre os grupos pré-históricos e as tribos indígenas que seriam encontradas pelos portugueses a partir de abril de 1500. na verdade o que se sabe é que muitos dos primeiros habitantes do Brasil desapareceram ou mesmo foram massacrados ou absorvidos por grupos indígenas que chegaram ao território brasileiro muito tempo depois daqueles pioneiros.
Estamos tão habituados a pensar que o Brasil "começou" no ano de 1.500 com o descobrimento da Terra Brasilis por Pedro Álvares Cabral que corremos o risco de achar que pré-história e arqueologia são exclusividades do Velho Mundo. Sendo o conhecimento da história fundamental para o fortalecimento da identidade de um povo, temos que proporcionar a nós mesmo uma chance única de tomar consciência de que, além de uma história, o Brasil tem também pré-história. Os sítios arqueológicos estejam eles nas cavernas do Piauí, a céu aberto em Minas Gerais e no Amazonas, nos sambaquis do litoral, nos alagados do Pantanal do Mato Grosso, são patrimônio cultural de um povo e um dos caminhos para o conhecimento do passado. Eles podem esclarecer que nossa história não começa com os portugueses, mas que a chegada deles, é apenas um marco nessa caminhada de muito mais do que apenas quinhentos anos.
Quem eram esses caçadores antigos que adentraram o Alasca e mais tarde ocuparam toda a América? Estes primeiros habitantes são chamados de paleoíndios, eram caçadores especializados em animais de grande porte, também chamados de megafauna, altamente adaptados a ambientes terrestres abertos e de clima temperado. O conceito de paleoíndio no Brasil, entretanto, varia um pouco do descrito acima. A alimentação não se baseava na megafauna, mas na caça generalizada de animais pequenos, médios e grandes e no consumo de produtos vegetais. Ocorre que, houve uma adaptação arqueológica ao espaço tropical nos cerca de dois mil anos que separam a chegada do homem à América até a ocupação da América do Sul e das terras brasileiras. Tal fato deixa claro que a arqueologia brasileira é única tendo muitas vezes que se desfazer de periodizações e conceitos da arqueologia americana ou européia
A palavra arqueologia está envolta numa aura de suspense e de aventura, exerce uma fascinação nos homens porque através de cacos de cerâmica, de restos de ossos e até do lixo faz emergir respostas sobre os tempos mais remotos da humanidade. Enquanto os historiadores dispõem de documentos escritos para realizar seu trabalho, os pré-historiadores lançam mão de todo tipo de vestígios ou marcas deixadas pelo homem na sua trajetória de vida pelo planeta. Localizar, analisar e interpretar tais vestígios é tarefa da arqueologia. Isto traz à tona a questão fundamental sobre a preservação dos sítios arqueológicos brasileiros. A ciência arqueológica é cumulativa e depende primordialmente de dados recolhidos em campo, isto é, nos sítios arqueológicos. A memória do país está depositada nas cavernas, grutas, nas pedras, nos sambaquis e é necessário preservá-la para garantir ao arqueólogo a matéria prima do seu trabalho e para que possamos encontrar as chaves que ligam a máquina do tempo que nos leva de volta à pré-história.
Para concluir nossos estudos sobre a pré-história do Brasil vamos ler parte de um suplemento especial do jornal O Globo sobre o assunto.
O Brasil pré-histórico
Há menos de 200 anos, o Brasil declarava a Independência. Pouco mais de cinco séculos atrás os portugueses chegavam aqui. E costuma-se pensar que o túnel do tempo brasileiro termina aí. Mas ele prossegue, não por séculos, mas por milênios de viagem. Décadas de escavações da Amazônia aos Pampas gaúchos revelaram que a saga do homem na Terra Brasilis começou há bem mais de dez mil anos. Os verdadeiros pioneiros do Brasil chegaram quando a Terra ainda estava mergulhada na última era do gelo e animais gigantescos vagavam por florestas, cerrados e sertões. Tigres de dente de sabre e mastodontes se foram quando a era do frio terminou, mas o homem prosseguiu e forjou uma miríade de culturas. Hoje, a arqueologia tenta resgatar esse passado remoto.
O jornal O GLOBO, em uma matéria, oferece um panorama da pré-história do Brasil, à qual estamos ligados bem mais do que pela mesma terra. Laços de sangue sobreviveram ao massacre dos índios, descendentes desses povos ancestrais, pelos colonizadores europeus. Graças à genética, sabemos que o povo brasileiro têm herança indígena em seu DNA. É essa herança de sangue que dá ao Brasil ainda pouco conhecidas raízes milenares.
Arqueólogos, antropólogos, etnólogos, geneticistas e uma série de outros pesquisadores que estudam a pré-história do Brasil estão longe de montar o complexo quebra-cabeça de nosso passado, mas já têm peças reveladoras nas mãos. Pinturas rupestres, ossos e artefatos são mensagens do passado. Há consenso de que o homem já estava aqui há 12 mil anos. Porém, não são poucos os cientistas que vislumbram uma ocupação ainda mais remota, de até 25 mil anos. Do Piauí, onde estão mais de 700 sítios pré-históricos, vem a voz dissonante da arqueóloga Niède Guidon, que defende polêmicos 60 mil anos para a chegada do homem ao Brasil. De certo sabe-se que nossos 500 anos de História são apenas o capítulo mais recente da ocupação da terra que passou a se chamar Brasil.
"Ao conhecer nossa pré-história, fortalecemos nosso senso de identidade nacional. O ser humano está aqui há milênios e esses primeiros habitantes não desapareceram simplesmente. Provavelmente, foram assimilados pelos índios que vieram depois deles e dos quais recebemos uma herança não apenas cultural, mas também de sangue" — diz o arqueólogo e historiador Pedro Paulo Funari, da USP e da Unicamp.
No terreno onde morou o paleontólogo Peter Lund hoje funciona a escola que leva seu nome. O dinamarquês marcou definitivamente a cidade de Lagoa Santa.
"Passa de mil o número de sítios arqueológicos de norte a sul do país. Cada um é uma janela para momentos diferentes da pré-história brasileira" - explica a antropóloga física Sheila Mendonça de Souza, do Museu Nacional e da Fiocruz. Como num filme inacabado, os cientistas têm algumas cenas, mas não todo o roteiro. Os primeiros sítios foram descobertos em Lagoa Santa (Minas Gerais), no século XIX, por Peter Lund. Hoje, mais de cem sítios foram catalogados e de lá veio o esqueleto mais antigo do Brasil, o de Luzia, com cerca de 11.500 anos. Contemporâneos do chamado povo de Lagoa Santa, mas separados por milhares de quilômetros, eram os grupos que deixaram pinturas, sepultamentos e artefatos em São Raimundo Nonato, Piauí.
Trabalhos recentes revelam que há dez mil anos o Brasil não era um deserto de gente. Povos já haviam se espalhado por regiões como a Amazônia, o Pantanal, o Cerrado e, pelo que indicam várias pesquisas, os Pampas e as serras gaúchas. A Amazônia não era apenas dos bichos, mas dos homens, que há oito mil anos dominavam a floresta. Da mesma época datam os registros mais antigos dos sambaquis, sítios arqueológicos feitos de conchas e restos humanos que reinavam na paisagem do litoral do Nordeste ao Sul do país. A origem e as rotas desses pioneiros, chamados pelos cientistas genericamente de paleoíndios, ainda são motivo de discussão. De certo, sabe-se que havia uma imensa diversidade que só recentemente começou a emergir.
Os misteriosos senhores das praias
O brasileiro já gostava de morar na praia desde a época em que os antigos egípcios erguiam suas pirâmides. Por milhares de anos, o homem viveu das coisas tiradas do mar. A dependência era tão grande, que ele morava, comia e enterrava os mortos nos mesmos lugares, que após muitas gerações de ocupação acabaram por formar os pequenos morros conhecidos como sambaquis — de samba (mariscos) e ki (amontoados), em tupi.
Quando Cabral aportou no Brasil, essa gente do mar estava extinta há mais de mil anos. Os sambaquieiros — ou construtores de sambaquis — dominaram uma vasta parcela do litoral, da Bahia ao Rio Grande do Sul. Estudiosos, como a arqueóloga Maria Cristina Tenório, do Museu Nacional, dizem que a maioria foi destruída no período de colonização, já que ficava exatamente nas primeiras áreas ocupadas. Porém, lugares como o fundo da Baía de Guanabara (Guapimirim e Magé), Saquarema, Búzios e a Ilha Grande ainda têm sítios importantes. Alguns sambaquis alcançavam 30 metros de altura.
As mais antigas datações confirmadas de sambaquis têm 5.500 anos, mas os cientistas estimam que essa ocupação do litoral remonte a oito mil anos. Os mariscos eram a parte fundamental da alimentação dos sambaquieiros e suas conchas são o mais importante e abundante vestígio de sua passagem pela Terra.
A origem dos sambaquieiros é misteriosa, bem como seu desaparecimento. O que se sabe é que desenvolveram uma sociedade complexa. Os sambaquis foram simultaneamente morada, sepulcro e, talvez, símbolos religiosos e estratégicos. Seus vestígios representam verdadeiros microcosmos da pré-história do litoral, de onde foram retirados centenas de corpos e milhares de artefatos, incluindo armas e adornos.
"Os sambaquieiros desenvolveram uma cultura totalmente adaptada ao mar e diferente de outros povos pré-históricos. Não eram caçadores-coletores nômades. Eles dependiam muito da coleta de moluscos, mais previsível e que permitia uma coleta organizada e o assentamento" — diz Maria Cristina Tenório.
A dieta diferenciada também deu aos sambaquieiros, em geral, uma constituição física mais robusta do que a de outros grupos pré-históricos brasileiros. A especialista em antropologia biológica Sheila Mendonça de Souza, do Museu Nacional e da Fundação Oswaldo Cruz, diz que, em linhas muito gerais, os homens tinham 1,6m. As mulheres não costumavam passar de 1,55m.
"Mas havia diversidade. Estamos falando de cinco mil anos de ocupação. Provavelmente, existiam vários grupos" — diz Sheila.
Hoje, o legado dos sambaquieiros está ameaçado. Os poucos sambaquis remanescentes correm o risco de desaparecer, vítimas da especulação imobiliária e do abandono.
"Os sambaquis são frágeis e não contam com qualquer proteção" — alerta a arqueóloga do Museu Nacional Rhoneds Perez, que junto com o também arqueólogo Alceri Luiz Schiavini concluiu um estudo que alerta sobre a destruição do Sambaqui da Amizade, em Santa Catarina, onde foram descobertos raríssimos vestígios de tecidos, no caso uma bolsa de fibras vegetais.
Veja ao lado o que é exatamente um sambaqui. Clique na figura para ampliar o tamanho e você verá bem melhor.
Fonte: Jornal O Globo, 06/09/2003
Galerias - Brasil - Pré-histórico
O ÍNDIO BRASILEIRO NO SÉCULO XXI
Porto Seguro, manhã chuvosa de 22 de abril de 2000/ Passeata dos 500 anos
Gostaria de começar a falar sobre o índio brasileiro no século XXI transcrevendo uma reportagem publicada na revista Veja de 28/04/2004, onde é feita uma crítica á situação atual dos primeiros habitantes do Brasil. Leia primeiramente a reportagem na íntegra e depois nós conversamos.
"Sem fé, lei ou rei"
Leonardo Coutinho, de Espigão dOeste (Revista Veja, 28/04/2004)
A Funai fez das reservas indígenas áreas de preservação de sua própria burocracia e agora enfrenta acusações de corrupção.
Com o primitivismo característico do homem europeu culto e nobre do século XVI, o cronista português Pero de Magalhães Gândavo diagnosticou o que a seu ver seria a mácula original do caráter do silvícola brasileiro. Depois de uma viagem ao Brasil em 1570, ele escreveu que os índios não podiam ser mesmo grande coisa, pois na língua deles "não se acham F, nem L, nem R, coisa digna de espanto, porque assim não têm Fé, nem Lei, nem Rei". A confusão mental de Gândavo, que não via ordem ou justiça possíveis em uma sociedade estranha se ela não reproduzisse fielmente os vocábulos de seu próprio idioma, não difere muito da imagem que seus contemporâneos tiveram dos índios. Cinco séculos depois, essa imagem praticamente se inverteu. Os índios são idolatrados. No Brasil do século XXI, todo dia é dia de índio. Os selvagens são vistos como defensores da floresta e guardiães de culturas e línguas que precisam ser preservadas a todo custo.
Na semana passada, com a descoberta de um massacre cometido pelos índios cintas-largas contra 29 brasileiros que garimpavam diamantes em sua reserva no Estado de Rondônia, a idéia de que o índio pode ser tão cobiçoso, cruel e mesquinho como qualquer outro ser humano voltou a ser cogitada. Não sem certa resistência, em especial da imensa burocracia federal encarregada de tutelar os selvagens brasileiros, a Fundação Nacional do Índio (Funai). Mércio Pereira Gomes, presidente da Funai, e seu chefe, Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça, justificaram o ataque dos índios como um ato de defesa de suas terras. Ambos lembraram que os garimpeiros estavam "cometendo um crime". Qual? Prospectar diamante em áreas indígenas. Pero de Magalhães Gândavo ficaria deveras contente em ouvir tais justificativas. Descobriria que estivera certo todos esses séculos. Se as maiores autoridades do país encarregadas da política indigenista reconhecem que os índios podem matar quem garimpa em suas terras então está claro que são mesmo uma gente sem fé, lei ou rei. Tanto os tutelados quanto seus protetores, diria um cronista moderno. Como outros ministérios e órgãos do governo do PT - os mais notórios deles aqueles ligados à reforma agrária -, a Funai vem ajudando a criar no país uma falsa "questão indígena". Donos de 12% de todo o território nacional, os cerca de 410.000 índios - fossem a Funai mais competente e o governo menos leniente - não deveriam ter problema algum além do tédio e da obesidade, que já está se transformando em doença nas tribos do Xingu.
O próprio PT deu o alerta sobre essa nova forma de atuação proativa da Funai. No ano passado, o governador petista de Mato Grosso do Sul, José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, pediu ao presidente a substituição dos três administradores da Funai no Estado. Segundo o governador, funcionários da Funai estavam transportando em seus carros índios terenas para uma área invadida com o objetivo de "aumentar o contingente de conflito". Agora outro governador, Ivo Cassol, de Rondônia, vê na atuação da Funai o catalisador de discórdia e tensão em seu Estado. O governador corroborou as acusações feitas por um bispo de Ji-Paraná, em Rondônia, dom Antonio Possamai, segundo quem a Funai faz vistas grossas ao uso por contrabandistas das pistas de pouso existentes na reserva dos índios cintas-largas. "A Funai sabe de tudo. Contrabandistas pousam seus aviões em pistas da própria Funai, que vê tudo e não fala. Até o acompanhamento da negociação das pedras de diamante é feito sob os olhos dos funcionários do órgão", acusa o governador Cassol. Uma comissão de deputados federais liderada por Alberto Fraga, do PTB do Distrito Federal, esteve na semana passada em Espigão dOeste, cidade distante 20 quilômetros da reserva onde ocorreu o massacre. Fraga reclamou do controle total que a Funai tem do acesso ao território indígena. Disse Fraga: "Nem a Polícia Federal pode entrar na reserva, e o que se ouve na cidade é que o comércio de diamantes é acertado com os caciques na presença do pessoal da Funai".
O governo já fora informado da tensão na área da Reserva Roosevelt e nada fez para esfriar a temperatura elevada devida à cobiça de índios, garimpeiros e, como sustentam o governador, o bispo e o deputado, dos funcionários da Funai. Os cintas-largas se confundem com a população não índia de Espigão dOeste. Os caciques vivem parte do tempo nas melhores casas da cidade, que eles compraram com o dinheiro do comércio de diamantes. As propriedades dos caciques nas cidades de Cacoal e Pimenta Bueno estão entre as mais caras. Em Cacoal, por exemplo, o cacique João Bravo tem uma mansão com cercas eletrificadas e vigilância eletrônica. Só usam carros do ano. Eles preferem as caminhonetes como a Hilux 3.0. A de um dos filhos do cacique Bravo é equipada com DVD-player. Muitos dos chefes índios apontados como suspeitos de comandar o massacre dos garimpeiros na semana passada já respondem a processo na Justiça Federal. Eles são acusados de formação de quadrilha, garimpagem ilegal e contrabando.
A força-tarefa comandada pela Funai, que cercou a reserva dos cintas-largas depois do massacre dos garimpeiros, atua de forma bastante peculiar. As estradas de acesso à reserva estão fechadas e os carros são minuciosamente revistados. Mas, por alguma razão misteriosa, as revistas visam apenas aos veículos que se dirigem à cidade de Espigão dOeste e à reserva. Os que saem não sofrem nenhum tipo de revista. No dia 19 de abril, índios paramentados de índios entraram livremente no Congresso Nacional, ocuparam as mesas dos parlamentares e fizeram discursos em saudação a eles próprios. Com as tribos indígenas prósperas, donas de latifúndios tão vastos e sob a tutela da Funai, fica a pergunta: quem vai cuidar da tribo dos garimpeiros? A cultura deles pode não ser tão atraente do ponto de vista antropológico, mas certamente atrairia a curiosidade de cronistas seiscentistas como Magalhães Gândavo. Eles gostavam de perdedores.
Muito bem. Vamos tentar discutir a reportagem, principalmente levando em conta que a maioria de vocês que agora estão lendo esse material pensam exatamente como o autor da reportagem. Tentemos, então, chegara um denominador comum. Vamos nos despir de qualquer sinal de discriminação e preconceito e tentar questionar algumas das afirmativas do repórter. Vamos lá.
A edição da revista Veja traz um belo exemplo do que irresponsabilidade, preconceito e interesses econômicos podem fazer com o jornalismo. O texto "Sem fé, lei ou rei" aborda o conflito entre índios cinta-largas e garimpeiros no interior de Rondônia. Talvez a única função positiva do artigo seja como exemplo nas escolas de comunicação do que não devemos fazer enquanto profissionais ou pessoas. O fato trágico, no entanto, é que ele circula na revista de maior número de leitores no país e serve apenas para alimentar rixas e distorcer a realidade.
Qualquer veículo de comunicação que se preze tem a apuração como exigência mais preciosa para uma matéria de qualidade. No caso, parece que tudo isso foi jogado para fora. Não há, por exemplo, qualquer contextualização histórica sobre o assunto, que já ocupou as páginas dos jornais tantas vezes nos últimos anos. Não cita sequer que em 2003 a Funai retirou cerca de 5 mil garimpeiros da terra indígena e que uma força-tarefa já havia sido criada para acompanhar o caso. Ou que vários organismos internacionais ligados aos direitos humanos também emitiram relatórios sobre a questão e visitaram a área. Outro erro grave: não há nenhuma resposta às críticas, o governo federal e a Funai não foram ouvidos e, muito menos, os índios. Esses, aliás, nunca são ouvidos.
É estranho que o repórter esteja escrevendo diretamente de Espigão dOeste e não traga nenhuma fonte local. O investimento da revista em mandar um repórter para lá não traz qualquer novidade além da informação que caciques têm casas na cidade e andam de carro importado, algo noticiado ao longo da semana pelas TVs. A aldeia, segundo o próprio texto, fica a 20km. Por estar tão perto e serem protagonistas no assunto, será que não seria uma boa ouvir os moradores dessa aldeia? E os garimpeiros? Também não tiveram vez. Nenhum pôde comentar a perda dos 29 companheiros brutalmente assassinados. Talvez porque eles tenham falado durante toda a semana para a imprensa nacional que esteve de olho na região. Além disso, em nenhum momento, os editores ou o repórter lembraram de ouvir algum especialista sobre o tema. O único erudito citado é nosso valioso Pero de Magalhães Gândavo e sua teoria. E não nos faltam especialistas sobre as comunidades indígenas. Por baixo, podemos citar Julio Melatti, Mércio Gomes, Maria Hilda Paraíso, Sidnei Possuello e outros pesquisadores indígenas.
Por outro lado, vários políticos, que também falaram ao público durante toda a semana em que aconteceu o conflito, voltaram a ter amplo espaço. A lista de aspas conta com governadores e deputados. E nós sabemos que muitas vezes nossos políticos podem ser sensíveis à atuação de grupos de pressão interessados em garimpo, extração de madeira ou a ampliação da fronteira agrícola. Mas o ministro da Justiça foi duramente condenado pela Veja ao dizer que "todo dia é dia de índio". Será isso tão condenável do chefe da pasta do governo responsável pela defesa da população indígena brasileira? Será isso um grande erro?
A falta de conhecimento e o preconceito são latentes na matéria. Um exemplo é o trecho: "Os índios são idolatrados. No Brasil do século XXI, todo dia é dia de índio. Os selvagens são vistos como defensores da floresta e guardiões de culturas e línguas que precisam ser preservadas a todo custo". Usar um termo como "selvagem" é digno dos cronistas portugueses que inspiram o texto. Mais triste, porém, é que um "civilizado" diga que os índios são idolatrados e apela para certa ironia velada sobre o real valor da cultura indígena. Uma vez, certo alemão franzino e baixinho, de bigode apertado, também questionou o valor de se preservar a cultura de certa minoria religiosa. Deu no que deu. E quanto à idolatria incondicional deste conceito de índio-pop que nos é apresentado? . Na realidade, e o tom dessa matéria comprova isso, os índios sofrem talvez o mais forte preconceito racial no Brasil de hoje.
Outro argumento que deveria ter parado na pena dos cronistas portugueses de 500 anos atrás é: "Donos de 12% de todo território nacional, os cerca de 410 000 índios - fossem a Funai mais competente e o governo menos leniente - não deveriam ter problema algum além do tédio e da obesidade, que já está se transformando em doença nas tribos do Xingu".
O problema começa com a generalização. Os 410 000 índios brasileiros eram cerca de 100 mil em meados do século passado e retomaram seu processo de crescimento de forma inesperada. Nos anos de 1950 a mentalidade por trás da criação de terras indígenas era de se ter um espaço para deixar de lado aquele povo agonizante até desaparecem. Essa mentalidade sempre foi forte nesse país. No século XIX, aldeamentos foram criados no sul da Bahia, especificamente na região de Ilhéus e sua principal finalidade era catequizar e "civilizar" os "selvagens" Botoudo, Pataxó e Kamakan, A finalidade era tomar-lhes as terras, explorar sua mão-de-obra na abertura de estradas, construção de pontes, abertura de caminhos e roças para servir de suporte aos viajantes que comercializavam entre Bahia e Minas Gerais. Finalmente, ser mão-de-obra fundamental na abertura das roças de cacau, a riqueza que emergia no sul da província. E disto eu entendo. Minha pesquisa de mestrado é justamente sobre esse tema. É de arrepiar ler as cartas que os missionários Capuchinhos escreviam aos Diretores de Índios e Governadores de Província, dando conta dos excelentes "progressos" alcançados com os "selvagens". A lógica imperial vigente na época perguntava por que conceder milhares de hectares a esse tipo de gente que deve sumir?
As cerca de 200 etnias brasileiras têm realidades totalmente distintas. Algumas mal têm terra para sobreviver, vivem à beira do asfalto pedindo esmola ou sobrevivendo de artesanato. Mas os grandes "latifúndios indígenas" - como são descritos no texto - ocorrem principalmente em regiões como a Amazônia, onde existem estados como Roraima, que tem 300 mil habitantes e duas vezes a área do estado de São Paulo. A situação dos índios no nordeste do Brasil é diferente, de uma miséria quase total. Quem já foi a Porto Seguro sabe do que eu estou falando. Os Pataxó sobrevivem cobrando para tirar fotos com turistas enquanto tentam vender seu artesanato. O Parque indígena Caramuru-Paraguaçú, abriga centenas de índios de sete etnias diferentes e que tradicionalmente eram inimigos. A etnia dominante é a dos Kiriris, mas outras seis habitam o parque. Isso sem contar aqueles que continuam a disputar com os fazendeiros, pequenos ou grandes, terras que são da reserva indígena e que continuam ocupadas pelos fazendeiros. Podemos também citar o caso dos Maxacalis, em Minas Gerais. Abandonados pelos órgãos competentes, discriminados e perseguidos pelos fazendeiros que lhes tomaram as terras da reserva, amargam um dos maiores problemas das comunidades indígenas, o alcoolismo, bebem tanto que o álcool já lhes deforma o próprio corpo.
Mas nada melhor que os termos "obesidade e tédio" para nos elucidar mais sobre a intenção do texto. Com toda propriedade a matéria diz que ambos são "problemas de saúde no Xingu". Quem diz isso? A Funai? Ou Pero de Magalhães Gândavo? A matéria não cita a fonte do dado. Além dos ecos do antigo discurso de que os índios são preguiçosos, nada poderia estar mais distante da realidade. Era a desculpa usada pelos nossos primeiros historiadores para incentivar a necessidade de extinguir os aldeamentos indígenas, isso desde o século XIX, sem falar no que aconteceu antes.
Em suma, a revista Veja perdeu a oportunidade de aprofundar o tema dos conflitos indígenas, um assunto extremamente complexo e distante do pensamento minimalista e maniqueísta do texto. Talvez seu único mérito - que aparece afogado no meio de tantas distorções, exageros e irresponsabilidades - seja afirmar que o índio pode ter os mesmos defeitos como qualquer outro ser humano. Corrupção, chantagem, disputas de poder, traição, ganância etc., são fatos da vida de qualquer comunidade humana, seja ela indígena ou não. Infelizmente a imprensa brasileira é cada vez mais influenciada por esta nossa face vergonhosa e obscura.
Como na história bíblica de Ló – o sobrinho de Abraão que sobreviveu à destruição de Sodoma e Gomorra e teve que praticar incesto com a própria filha para evitar o fim da própria tribo – apenas uma relação incestuosa poderá salvar os Avá-Canoeiro da extinção. Segundo dados coletados pelo jornalista Eduardo Bueno para uma série de reportagens publicadas pelos jornais Folha de São Paulo e Zero Hora, de Porto Alegre, os outrora temidos Avá-Canoeiro eram mais de 3.000 em 1750. No início do século XXI, não eram mais do que dez. Em 2002, eles eram apenas seis.
Entre essa única e última dezena, apenas um garoto Trumack, nascido em 1987, e a garota Potdjawa, de 1989, podem ter filhos. Só que os dois são irmãos. Como entre muitos outros povos do mundo, entre os Ava-Canoeiro a pena para o incesto é a morte. O dilema dessa tribo é exemplar: haverá para os índios do Brasil futuro que não seja perverso?
Do "descobrimento" do Brasil até hoje, mais de mil grupos étnicos já foram extintos no Brasil. Restam 200 tribos e alguns milhares de índios. Suas reservas ocupam 850 mil quilômetros quadrados, ou cerca de 10% do território nacional – área sob constante ameaça de invasores e posseiros. Em pleno século XXI, o Brasil ainda trata seus nativos como um mero entrave ao avanço da civilização. Dessa forma, infelizmente, não é possível dizer se ainda haverá salvação para os habitantes originais de Pindorama, a Terra das Palmeiras.
De todos os dramas vividos pelas tribos brasileiras, o mais rumoroso tem sido o do suicídio coletivo dos Guarani-Kayowá, de Mato Grosso do Sul. Agrupados em reservas improdutivas, submetidos a um regime de trabalho semi-escravo e despojadis de suas tradições, 236 Kayowá se mataram em menos de uma década. Só em 1995, foram 54 os que cometeram o deduí, ou o suicídio ritual – ou o rito de "apagar o sol", como os próprios índios, trágica e poeticamente o denominam.
Em dezembro de 1995, o então Ministro da Justiça, Nelson Jobim, hoje Presidente do Supremo Tribunal Federal, foi a Mato Grosso do Sul e aumentou a área de uma das menores reservas dos Kayowá. No mesmo dia, porém, o jovem Odair Lescano, de 17 anos, enforcou-se no abacateiro em frente á sua choupana. Poucas semanas antes de Lescano, antropólogos da Funai, haviam contatado, em Rondônia, um casal de índios de um grupo desconhecido até então. De acordo com os dois sobreviventes, o restante da tribo já havia sido exterminada por ataques dos brancos. No Brasil a Idade da Pedra ainda não acabou.
ISA - Instituto Socioambiental
O ÍNDIO NORTE-AMERICANO
Quando Cristóvão Colombo descobriu a América, os povos indígenas eram os senhores da terra. Os antropólogos apontam a existência, em 1492, de 12 milhões de índios no novo continente. Primitivos, guerreavam entre si, com raras exceções como no caso das Seis Nações, no extremo norte do país, numa vasta região fronteiriça ao Canadá, onde a aliança entre as tribos só foi quebrada na guerra da independência, onde a maioria lutou contra o colonizador inglês.
Apaches, Comanches, Navajos, Dakota, Siox, Soshones, Pawnees, Hunkpapa, Seminoles, Miccosukee e centenas de nações indígenas dominavam um território selvagem e inexplorado, vivendo como seus ascentrais milenares. Nos últimos 507 anos, o índio americano foi trucidado na genocida marcha da civilização branca, cristã. Mais de 200 povos desapareceram. Na Califórnia, poucos sobreviveram para contar a história. Foram mais de um milhão de índios mortos entre a independência americana, em 1776, e o fim da Guerra da Secessão, em 1865. "Somente nas universidades é que a grande maioria dos americanos toma conhecimento de como foi brutal contra o índio o processo colonizador", reconhece Judd Berbier, professora de História da Universidade do Novo México, que fez sua tese de doutorado sobre a política em Minas Gerais durante o Império, no Brasil.
Massacres contínuos, marchas forçadas e outras barbáries foram cometidas nos Estados Unidos contra os povos indígenas. As tribos Seminole e Miccosukke, que viviam nos Estados da Geórgia e Alabama, foram dizimadas e expulsas de suas terras imemoriais. Muitos só conseguiram sobreviver nos pântanos da Flórida, habitados por cobras e jacarés onde hoje está o Parque Nacional dos Everglades em terras que o branco não tinha interesse.
Eles caçaram animais menores e se adaptaram aos recursos de cada região. Por volta do ano 1.500, dois milhões de pessoas viviam ao norte da mesoamérica, falando cerca de 300 línguas. A partir desse diverso mosaico cultural, podemos destacar quatro regiões principais: a Califórnia tinha 500 tribos diferentes, a maioria liderada por um cacique, um chefe tribal e usavam conchas como moedas. Se dedicavam à produção de nozes e milho. Dois produtos importados revolucionaram a vida do indio: arco e flecha, chegaram no ano 500 anos DC, possivelmente do Ártico. Os cavalos chegaram através dos europeus no século XVIII. Tribos inteiras incorporaram os cavalos ao seu cotidiano.
Entre os povos indígenas mais aguerridos e mais famosos da América do Norte no tempo da colonização inglesa estavam os Sioux, expressão que significa "serpente" e que era usado pelas tribos inimigas para deignar um povo que chamava a si mesmo de Dakota. Os Sioux ou Dakotas abrangiam três grandes grupos: os satees, os yanktons e os tetons. Estes últimos, por sua vez, subdividiam-se em diversas tribos das quais se destacaram os oglalas, brulés, hunkpapas, e outras. Esses grupos viviam no noroeste dos Estados Unidos, nas extensas pradarias cortadas pelas bacias dos rios Mississipi e do Missouri. na região existiam outras tribos como os cheyenne, aliados dos sioux, e inimigos, como a tribo crow.
Com relação aos costumes desse povo, podemos afirmar que eles praticavam a agricultura, em especial a do milho, mas a sua sobrevivência dependia principalmente da caça ao bisão. Para abater as manadas que cortavam as planícies americanas, os sioux mobilizavam aldeias inteiras. Tudo do animal era aproveitado: a carne era consumida pelas tribos, os ossos e os chifres eram utilizados para a fabricação de instrumentos diários e de armas, e com o couro confeccionavam roupas, utensílios domésticos e tendas.
Sem nenhuma dúvida, podemos dividir a existência dos índios norte-americanos em duas fases: antes e depois de conseguirem os cavalos. Estes animais haviam sido introduzidos na América do norte pelos espanhóis que haviam conquistado o México. Os animais se espalharam pelo continente e fizeram com que os indígenas tivessem uma mobilidade que não conheciam antes. Graças a eles puderam acompanhar as migrações dos rebanhos e a fome nunca mais foi preocupação. A cultura da tribo também modificou e, assim, várias horas que antes eram destinadas à caça foi reservada às orações, rituais religiosos e mágicos. Entre as cerimônias importantes dos sioux estava a chamada Dança do Sol, na qual os participantes usando afiadas estacas cravadas na pele, presas por tiras de couro a um poste de madeira, em torno do qual dançavam horas a fio, expostos ao sol. Só paravam de dançar quando a pele se rompia e eles recebiam a visão dos espíritos.
A situação dos nativos americanos, como são conhecidos nos Estados Unidos, é de luta, pobreza e discriminação. Tribos como a dos Oglala-Lakota ocupam hoje uma das maiores reservas indígenas dos Estados Unidos _ Pine Ridge, com 270 mil hectares, numa área vizinha ao Parque Nacional Bad Lands, que os índios até hoje reivindicam do governo americano como suas terras imemoriais. Em Pine Ridge, com pouco mais de 22 mil habitantes, os tempos são outros. O desemprego atinge 90% da população. As manadas de bisonte_ principal fonte de alimento dos índios, por séculos _ praticamente desapareceram. As poucas existentes estão na mão de fazendeiros privados.
Os Sioux têm recusado sistematicamente receber indenizações em dinheiro do governo dos Estados Unidos por suas antigas terras, principalmente as que hoje integram o Parque Nacional Bad Lands e a Floresta Nacional Black Hills, dois pontos de maior visitação do Dakota do Sul, que anualmente recebe 1,2 milhão de turistas.
Os índios exibem uma série de tratados assinados no século passado com os brancos, intermediados pelo exército, que nunca foram cumpridos. "Nossas terras até o tratado de 1860 ocupavam áreas de quatro estados americanos, mas fomos sendo espoliados a cada novo tratado assinado" - afirma Daphne Richards Cook, uma espécie de ministra do Turismo dos Sioux-Oglala da reserva Pine Ridge. Emily Bull Bear, descendente de Sitt Bull (Touro Sentado), outro chefe indígena que virou lenda nos Estados Unidos, dedica-se atualmente a tentar preservar a cultura de seus ascentrais, pilotando um surrado computador Pentium, onde controla das datas sagradas, onde os Sioux até hoje realizam seus rituais e culto a seus deuses. "Nosso sonho ainda não acabou" - diz Emily, acredita que, no futuro, os índios americanos possam recuperar suas terras e reviver suas tradições milenares. Os Lakota também não esquecem um dos mais bárbaros massacres da história americana.
Se vocês quiserem conhecer mais sobre a história dos índios norte-americanos procurem ler um livro maravilhoso, grande sucesso da década de 70 do século XX: Enterrem meu coração na curva do rio, do escritor Dee Brown.
"Os homens que o Pai Grande nos mandou não têm sentimentos nem coração". A sentença, proferida pelo líder sioux Nuvem Vermelha, define a personalidade do homem branco norte-americano que, na sede por conquistar territórios, dizimou milhões de índios peles-vermelhas que ocupavam o país de dimensões continentais.
Ela está no aclamado livro de Dee Brown, que revela detalhes sobre os mais violentos massacres da história da humanidade.
A partir do relato de chefes e guerreiros de tribos como Cheyenne, Dakota e Sioux, o autor traça o mapa do extermínio que acometeu a América em meados do século XIX. De um lado, soldados protegidos por fortes e armas de fogo. De outro, uma gente corajosa e disposta a lutar pela preservação da própria cultura e existência. Um povo estabelecido na terra há centenas de anos e que, apesar das diferenças, tinha consciência da própria unidade.
Num esclarecedor relato histórico, Enterrem Meu Coração na Curva do Rio conta a história de nomes como Cabelo Pintado, Chifres Ocos, Lobo Pequeno, Chapéu Branco e Cochise - este último protagonista da uma das passagens mais marcantes do livro. Quando o General Oliver Howard sugere o confinamento de sua tribo apache numa reserva, ele sabiamente questiona: "Por que me fechar numa reserva?". E complementa: "Fixem limites e fronteiras, mas nos deixem viajar livremente como os americanos. Deixem-nos ir aonde quisermos". Alguém aí falou em "Terra da Liberdade"?
(Fernando Coelho / Texto retirado de: http://gazetaweb.globo.com)
Para concluir acesse o site abaixo e leia a belíssima carta escrita pelo Chefe indígena Duwamish, índio Seattle, ao Presidente Franklin Pierce em 1854 (depois de o Governo Americano ter dado a entender que desejava adquirir o Território da Tribo).
É um dos mais belos documentos que já se escreveu sobre o amor à terra.
A MESO-AMÉRICA
Já conseguimos identificar esse primitivo habitante do continente americano, localizamos as discussões a respeito da sua origem, vimos os locais onde eles viveram, conhecemos Luzia e seus contemporâneos. Criticamos a situação atual desses remanescentes, seus problemas em viver num mundo globalizado que não aceita o 'outro' e que continua conquistando seus espaços e desrespeitando sua cultura. Agora, vamos reduzir um pouco nosso foco de estudo e passemos a conhecer a região conhecida como Meso-América, local de desenvolvimento das principais sociedades agrárias da América pré-colombiana. Vamos juntos, uma vez que preparar esse material me fez redescobrir a beleza dos povos indígenas pré-colombianos, reconhecer fatos e mitos dos quais eu nem me lembrava mais, guardados que estavam na minha memória, naquele compartimento dedicado àquilo que você viu na Universidade, com olhos de uma juventude que priorizava o que considerava como 'importante". revendo tudo isso com os olhos de quem valoriza o que realmente é importante, reavaliei meus conceitos e me descobri bem melhor. espero que aconteça o mesmo com vocês. Espero especialmente que gostem de conhecer Malinche ou marina, a índia que foi a companheira e intérprete de Fernão Cortez durante o processo de conquista dos Astecas. poucos personagens históricos são tão fascinantes e tão difíceis de entender como ela.
A ASTRONOMIA, O CALENDÁRIO E A ESCRITA GLÍFICA DOS MAIAS
Únicos a desenvolver uma verdadeira escrita, os Maias herdaram dos Olmecas, de La Venta, uma escrita complexa e embrionária, a qual transformaram em uma escrita aparentemente não alfabética, composta por cerca de 1000 glifos (como são chamados os caracteres ideográfìcos dos Maias). Esses glifos levam a uma concepção de escrita ideográfica, haja vista que ora representam sons, ora são símbolos, e, de outras vezes, são determinativos, segundo pesquisas recentes, que, se confirmadas, indicariam que os Maias caminhavam para uma escrita alfabética e fonética. Até bem pouco tempo, só se compreendia cerca de 180 desses 1000 caracteres da escrita Maia.
Exemplo da escrita glífica dos Maias
O pouco que se conhecia da escrita Maia deve-se ao bispo espanhol Diego Landa, que por volta de 1566, escreveu um livro sobre os glifos Maias, valendo-se de índios letrados, no qual identificava os nomes dos 20 dias do mês, bem como os nomes dos 18 meses do ano Maia. Essa obra, apesar de consoladora, perde todo seu brilho, posto que esse mesmo bispo teria sido o responsável por uma ação voraz e destruidora, na qual foram consumidos, pelas chamas, cerca de 5000 ídolos, 20 estelas, 13 altares, 27 grandes manuscritos e 187 outros de menor porte, a se dar crédito ao jesuíta espanhol Domingo Rodriguez.
Existem 3 códices (códex), que são verdadeiros livros, e que sobreviveram incólumes ao período colonial, encontrando-se, hoje em dia, nos museus de Dresden, Madri e Paris. Um quarto códice, descoberto quase à mesma época, ainda não pode ser estudado, pois não se conseguiu, ainda, desenrola-lo. Esses "livros" são organizados de forma sanfonada, com múltiplas folhas escritas e pintadas nos dois lados. São feitos, na maioria dos casos, de um papel grosso (chamado huun), que é obtido martelando-se as fibras vegetais de uma casca de Ficus cotinifolia (figueira selvagem), cobertos, primeiramente, de resina (goma vegetal natural), e, a seguir, com uma fina camada de cal gelada e morta, revestida de amido. Já outros são feitos de finas peles de gamo, e, após dobrados, apresentam-se como verdadeiros livros.
O Códex Dresdensis (exposto em Dresden), que mede 3,50m. de comprimento ao ser desdobrado, é considerado o mais belo e mais completo. Contém 78 páginas, e foi a partir de sua análise que Ernest Forstermann conseguiu decifrar o Calendário Maia, bem como identificar tabelas planetárias relativas ao planeta Vênus. Pela sua análise, deve ter sido escrito por volta do século XI. Já o Códex Tro-Cortesianus ( que se encontra em Madri), com 7,15m. de comprimento e 112 páginas, e o Códex Peresianus (exposto em Paris), com 1,45m. de comprimento e 22 páginas, e o pior conservado dos três, são datados do século XV, e tratam, ambos, de adivinhações, e, aparentemente, de cerimônias relacionadas com artesanato e rituais de Ano Novo.
Estudos recentes dão conta que mais da metade dos cerca de 1000 símbolos da escrita Maia já se encontram decifrados, pondo, finalmente, à luz, textos que antes se imaginava só conter dizeres religiosos, quando, na verdade, expõem, também, os fatos da vida política dessa civilização, sendo capaz de desvendar os tantos mistérios que a envolvem.
O Calendário
Os Maias possuíam um complexo sistema de contagem de tempo, considerado o mais perfeito dos calendários já criados pelo ser humano. Em comparação com os utilizados pelos Ocidentais, é o que mais se aproxima do cálculo astronômico de duração do ano, conforme tabela abaixo:
Calendário Juliano (até 04.10.1582) 365,250000 dias
Calendário Gregoriano (após 15.10.1852) 365,242500 dias
Calendário Maia 365,242129 dias
Calendário Astronômico 365,242198 dias
Aprofundando-se os cálculos astronômicos e matemáticos, chegou-se ao número mais perfeito de duração do ano solar, consolidado pela inclusão de um mês suplementar de 13 dias a cada 52 anos, e complementado com a exclusão de 25 dias a cada 3172 anos, chegando-se quase à exatidão com o ano astronômico, tendo o Calendário Maia, nesse período de 3172 anos, 5 horas e 25 minutos, a menos que o Calendário Astronômico, o que significa um atraso anual de meros 6,16 segundos.
Para se chegar a essa perfeição, possuíam dois Calendários, de uso constante e simultâneo:
a) TZOLKIN, um Calendário composto de 20 meses de 13 dias cada, e utilizado para demarcar festividades religiosas (ver tabela 1);
b) HAAB, de uso, podemos dizer, profano, composto de 18 meses de 20 dias cada, e, complementando o ano de 365 dias, um décimo nono mês, de nome UAYEB, e que tem apenas 5 dias (v. Tabela 2).
Esses dois calendários completavam um ciclo a cada 18980 dias, onde 52 anos HAAB correspondem a 73 anos TZOLKIN.
Como foi citado acima, o TZOLKIN era um calendário de uso religioso, e, portanto, só indicava dados exclusivamente religiosos, fazendo-se necessária a utilização de um outro calendário, que daria indicações outras, principalmente para a agricultura, na determinação de estações climáticas e épocas de colheita.
Os dois calendários não eram dissociados, havendo, na descrição de uma data, a combinação das duas informações. Essa associação dos dois calendários é conhecida, nos meios acadêmicos, como Calendar Round (Volta do Calendário), fechando seu ciclo a cada 18980 dias, ou 52 anos solares.
As datas no TZOLKIN só se repetem a cada 260 dias, e, no HAAB, só a cada 365 dias, mas, uma data combinada, utilizando os dois calendários, só tornará a se repetir após terminado o ciclo, ou seja, 52 anos depois.
No HAAB, a sucessão de dias e meses segue a seqüência normal, tal e qual o Calendário Gregoriano (ver Tabela 2). Já no TZOLKIN, cada dia tem um número e um nome, que só volta a se repetir após encerrado seu ciclo de 260 dias. São numerados de 1 a 13, e associados aos vinte nomes de meses, conforme Tabela 2, até fechar o ciclo de 260 dias.
Isso posto, uma data Maia é descrita de forma dupla, como se segue: 4 Ahau 8 Cumhu, onde 4 Ahau é a data originária do TZOLKIN e 8 Cumhu é proveniente do HAAB. Pela sequência exposta acima, o dia seguinte vai ser 5 Imix 9 Cumhu e não 5 Ahau 9 Cumhu, pois no TZOLKIN o nome muda junto com o número do dia, ao contrário do HAAB. Essa mesma data (4 Ahau 8 Cumhu) só tornará a se repetir 52 anos depois, quando se fechar o ciclo de 18980 dias.
Ainda sobre essa mesma data (4 Ahau 8 Cumhu), é a mesma que inicia qualquer citação Maia de cronologia, o que levou os pesquisadores a considera-la como a data inicial do Calendário Maia, só havendo dúvidas quanto ao ano em que havido esse início. Procurou-se enquadrar uma data Maia a uma do nosso Calendário, e, a partir daí, efetuar os cálculos para determinar o ANO ZERO do Calendário Maia.
Segundo estudo da década de 1960, com interpretação das inscrições Maias, o Antigo Império, como é chamado, estaria compreendido entre 7 Ahau 3 Xul do 8. Baktun, 14. Katun (01/09/317) e 3 Ahau 3 Ceb do 10. Baktun, 2. Katun (17/08/869). Partindo dessa data mais antiga (não confirmada), 8.14.00.00.00, que corresponde a um total de 1.252.800 dias após a data inicial, a qual, segundo diversos pesquisadores, se localiza no ÌII Milênio antes de Cristo, havendo, entretanto, grandes variações: 8498 a.C. (Henseling), 14/10/3373 a.C. (Spinden), 11/08/3114 a.C. (Thompson) e 16/09/3606 a.C. (Vollemaere).
Para melhor visualizar as grandes divisões de tempo que compõem o Calendário Maia, observe:
Civilização Maia
POR ONDE ANDAM OS DESCENDENTES DOS ASTECAS?
Índios Mexicanos
"O mexicano não que ser nem índio, nem espanhol. Tampouco quer descender deles. E não se afirma nem como mestiço, senão como uma abstração: é um homem. Torna a ser um filho do nada. Ele começa com ele mesmo."
Octavio Paz - El labirinto de la soledad, 1950
Quase quinhentos anos depois da conquista de Fernão Cortez, as comunidades indígenas do México ainda sobrevivem, em meio à discriminação, pobreza, fome e falta de terras. Combativos e persistentes, eles juntam forças e emergem do mar do esquecimento a que foram relegados pelas autoridades mexicanas, principalmente a partir da década de 1930. É de se perguntar onde estão esses descendentes não só dos Astecas, mas de todos os outros povos que habitavam a região quando os espanhóis lá chegaram. Inicialmente vamos examinar a situação numérica dessas comunidades e depois, a sua atuação política em busca de seus direitos nesse início do século XXI. e nada mais interessante nessa luta do que conhecer o Movimento Zapatista de Chiapas, a região mais combativa do México.
Os grupos indígenas do México se caracterizam por valores culturais, idioma e identidade próprios, assim como por suas formas de organização social e modalidades específicas de se relacionar com a natureza e de se organizar para o trabalho, regidas pelas normas e leis ditadas por suas tradições.
Uma contagem cabal da população indígena do país deveria abarcar todos estes aspectos; não obstante, a dificuldade inerente a tal projeto, que vise captar simultaneamente todas essas complexas características, reduz a amostragem reconhecida àqueles que falam alguma língua indígena.
As cifras de falantes de língua indígena representam um pequeno número da população, uma vez que a introdução do castelhano na educação formal por meio das escolas bilingües fez com que as novas gerações abandonassem as línguas tradicionais de seus antepassados. Não obstante, muitos descendentes de falantes de línguas autóctones mantêm contato com sua língua, inclusive dentro das comunidades de origem e conservam vários de seus costumes.
Distribuição Territorial e Diversidade Etnolingüística
Estados da costa do Pacífico (Guerrero, Oaxaca e Chiapas), assim como na península de Yucatán (Campeche, Yucatán e Quitana Roo), e em Tabasco, onde a importante proporção de população falante de línguas indígenas evidencia a identidade étnica de sua população. Nestes estados residiam 2,7 milhões de falantes de língua indígena de 5 anos e mais em 1995, o que equivale a 28,9% da população total nessas idades.
Os náhuatls, mixtecos e otomíes são os indígenas com maior presença nas diferentes entidades federativas do país, situação que não se reflete nos mapas de predominância indígena, pois se localizam em municípios onde não são maioria. Tal é o caso de alguns municípios do Estado do México e delegações do Distrito Federal. Pelo contrário, os tzeltales, tzotziles e choles residem, em sua quase totalidade, em Chiapas (98,8%, 98,7% e 88,9%, respectivamente) e em municípios onde são a maioria com respeito à população total.
Fertilidade e Mortalidade na População Indígena
- Fertilidade
A comunidade e a família são pilares fundamentais da reprodução demográfica e social dos povos indígenas. O matrimônio (que pode ser civil, religioso ou consensual) e a paternidade-maternidade se traduzem em um deslocamento da posição das pessoas dentro da organização social e comunitária, e constituem eventos que marcam entre muitos indígenas o ingresso ao mundo dos adultos. Os filhos e as redes sociais que se formam a partir deles (compadrio, cargos, redes migratórias, sistemas de reciprocidade, etc.) são opções sociais que continuam vivas até nossos dias e conferem um valor especial à maternidade.
A queda na fertilidade ainda é relativamente recente entre vários dos grupos indígenas, de tal forma que a mudança somente é apreciada claramente entre as mulheres mais jovens. Os níveis de fertilidade mais baixos entre as gerações indígenas jovens (30-34 anos) registram-se entre os zapotecos, maias, otomíes, huastecos, totonacas e náhuatls, onde as probabilidades de aumento entre o 4o e o 5o filho são estimadas entre 74,3 e 81,3%. Estas mesmas probabilidades são sensivelmente inferiores às dos tzeltales, mazahuas e choles (de 89,4, 86,5 e 87,2%) que apresentam os níveis mais baixos de fertilidade indígena.
- Mortalidade
A queda na mortalidade tem acontecido de maneira sustentada no México desde 1930; não obstante, o risco de falecer ainda é relativamente alto entre os integrantes da população indígena. Estima-se que em 1995 a expectativa de vida no nascimento dos indígenas era de 69,5 anos (67,6 anos para homens e 71,5 anos para mulheres), enquanto que a do resto da população subia para 73,7 anos (71,4 e 76,0 anos, respectivamente). Esta diferença na vida média equivale a um nível de mortalidade 30% superior nos indígenas em relação aos não indígenas, sendo mais marcante nas mulheres (36%) do que nos homens (25 %). A maior mortalidade nos indígenas é mais significativa nas primeiras idades. Em especial, sua taxa de mortalidade infantil é quase o dobro da correspondente ao resto dos habitantes do país (54 frente a 29 mortes em cada mil nascimentos).
Eu sei que números provocam certa confusão em nossas cabeças e não atraem nossos olhos, porém são interessantes para que se observe as diferenças de vida e de condições econômicas dos descendentes dos índios mexicanos. Uma população de quase seis milhões não pode ser ignorada, principalmente quando começa a fazer barulho. Foi isso que as comunidades indígenas conseguiram principalmente a partir de 1994 quando o chamado exército Zapatista começou a exigir do governo mexicano providência para a melhoria de vida da população indígena. O movimento defende uma gestão democrática do território, a participação direta da população, a partilha da terra e da colheita.
A Rebelião Indígena em Chiapas
Douglas Carrara
A rebelião armada indígena iniciada no estado de Chiapas, no México, em 1º de janeiro de 1994, vem criando sérios problemas para a política neoliberal implantada no México a partir do governo Salinas. Entretanto não se trata de um movimento de guerrilhas de orientação marxista, como poder-se-ia supor diante de tantos movimentos guerrilheiros que eclodiram nos últimos anos em diversos países latino-americanos, inclusive, no Brasil na década de 70, no Araguaia.
Na verdade se trata de um novo modelo revolucionário desenvolvido a partir do pensamento indígena ancestral oriundo de formas próprias de organização política que poderíamos chamar de "comunismo primitivo".
O núcleo do chamado Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) formou-se a partir de 1982 na selva lacandona, no estado de Chiapas, com apenas 6 integrantes, 3 ladinos e 3 indígenas de orientação marxista-leninista, como representação de organização urbana sediada na capital. Entretanto o processo de aproximação com as diversas comunidades indígenas foi lento e difícil. Principalmente porque as propostas de cunho marxista de tomada do poder e ditadura do proletariado, por exemplo, não obtinham respaldo entre as lideranças indígenas. O EZLN somente obteve apoio e pôde se desenvolver quando decidiu aceitar as propostas indígenas de organização, de reivindicações e de luta.
Obviamente havia um potencial revolucionário de tradições seculares, oriundo das diversas rebeliões ocorridas desde a conquista espanhola no século XV e XVI. Entretanto todas estas rebeliões tiveram elementos tragicamente negativos tais como a irresistível tendência dos rebeldes em retirar-se para posições defensivas, o caráter elitista da resistência indígena, sujeitando o movimento a possíveis traições, a limitação da insurreição à própria comunidade, sem estabelecer alianças duradouras com as demais etnias, em virtude de divergências acumuladas através de séculos de convivência extremamente hostil e finalmente o implacável castigo imposto pelos vencedores aos rebeldes derrotados, já que a "pacificação" espanhola sempre foi mais violenta e sangrenta que o levantamento inicial indígena.
Tradução da imagem: "Você está em território Zapatista em rebeldia. Aqui manda o povo e o governo obedece. Zona Norte junta do Bom Governo. Se proíbe estritamente o tráfico de: Armas e consumo de drogas, bebidas alcoólicas, venda ilegal de madeira. Não a destruição da natureza"
O que desejam os indígenas de Chiapas? Simplesmente, Justiça, Liberdade e Democracia. Na verdade são povos que desejam autonomia e direitos constitucionais que lhe assegurem a propriedade coletiva das terras indígenas. Não desejam a guerra. Paradoxalmente, pegaram em armas apenas para torná-las desnecessárias, formando um estranho exército heterogêneo, com armas de todo tipo, desde pedaços de madeira, espingardas de ar comprimido até metralhadoras de última geração, que, quando desfila, costuma levar os mexicanos, às lágrimas.
Querem apenas o direito de cultivar em paz seus roçados de subsistência (milpas), e preservar suas tradições culturais ancestrais, suas danças, seus costumes, sua medicina, sua língua, sua religião, enfim tudo aquilo que os identifica como indígenas e que compõe o que se denomina de "México Profundo", segundo o antropólogo Guillermo Batalla. Enfim os indígenas mexicanos lutam por dignidade, acima de tudo.
O zapatismo vem transformando o panorama político mexicano, promovendo uma injeção de ânimo em todo o México, que no mesmo dia do levantamento assinava o Tratado de Livre Comércio (NAFTA) com os Estados Unidos incorporando finalmente o México no universo neoliberal. Trata-se, portanto, da primeira manifestação contrária ao modelo neoliberal a surgir em todo o mundo.
O principal porta-voz indígena tem sido durante todo esse longo processo de negociação, o sub-comandante Marcos, suposto professor universitário que abandonou a vida urbana, para abraçar emotiva e profundamente a causa indígena. Todo o movimento zapatista tem se caracterizado pelo uso de lenços (paliacates) e gorros (pasa-montanas), que dificultam a identificação dos integrantes do EZLN, quando viajam para o exterior das áreas livres zapatistas, os denominados "aguacalientes" (uma referência à Convenção realizada na cidade de Aguascalientes em 1914, durante a revolução mexicana), acampamentos construídos no meio da selva onde se reúnem e organizam convenções e até mesmo encontros internacionais para discutirem o próprio movimento e a teoria neoliberal. É interessante ressaltar que toda a história do México tem sido marcada por uma longa trajetória de traições e assassinatos de líderes revolucionários.
As negociações tiveram êxito e, em fevereiro de 1996, a liderança zapatista e delegados do governo federal assinaram os acordos de San Andres Sacamch'en, que garantiam os direitos indígenas não somente de Chiapas, como de todo o México que dispõe de 56 etnias, com língua e cultura próprias, variando de pequenas comunidades de 350 indivíduos (lacandon) até um contingente de quase 2 milhões de indivíduos, falantes de língua nahuatl.
Entretanto até agora os acordos assinados pelas duas partes em litígio não foram cumpridos e incorporados à constituição de 1917, obtida também através de um processo revolucionário e sangrento surgido a partir de 1910.
Por isto os zapatistas continuam organizados militarmente, alternando o trabalho agrícola com o treinamento militar, aguardando o momento de largar definitivamente as armas para retornar à vida tradicional indígena, da qual parece não quererem abrir mão. O governo parece não querer compreender que o indígena zapatista prefere morrer lutando, ainda que com um pedaço de madeira nas mãos do que deixar de ser índio e a condição fundamental para ser índio é dispor de terra para cultivar. Não há, portanto, perspectivas de vitória para o governo. Ou cumpre os acordos de San Andres, já assinados ou invade os territórios zapatistas e promove uma carnificina geral, que pode levar o México a uma guerra civil de dimensões imprevisíveis.
Inúmeros episódios sangrentos isolados vêm ocorrendo desde o início do conflito armado, entretanto a situação parece ter ficado sem controle a partir do massacre de Acteal, quando 45 indígenas, entre idosos, crianças e mulheres, da associação civil "Las Abejas", organização pacifista e que não concordava até então com os métodos zapatistas, foram massacrados dentro de uma pequena capela, quando rezavam pela paz, no dia 22 de dezembro de 1997. Em torno de 200 paramilitares, identificados depois como militantes do partido do governo na época (PRI), invadiram a igreja católica, fortemente armados, eliminando todos que se encontravam no local e que não puderam fugir. Depois da chacina, profanaram os corpos de mulheres grávidas, retirando e matando os fetos, com o facão (machete).
Evidentemente este episódio sangrento e bárbaro gerou protestos do mundo inteiro que tem condenado os métodos que estão sendo utilizados para acabar com o conflito. Esta pressão internacional tem provocado reações inusitadas do governo que vem deportando inúmeros observadores internacionais, que vão a Chiapas, na tentativa de criar um escudo protetor do movimento indígena zapatista, que cada vez mais, vem obtendo a simpatia de inúmeras ONG's (organizações-não-governamentais) do mundo inteiro.
Já existe um consenso de que o movimento zapatista de Chiapas não se trata de um movimento separatista ou mesmo anti-mexicano. Pelo contrário os indígenas querem continuar fazendo parte orgulhosamente da nação mexicana. Entretanto querem um México efetivamente pluralista, que não se envergonhe de seu passado indígena, e que ao invés de desindianizar os indígenas, ajude-os a desenvolver plenamente sua cultura, seus costumes e garanta a dignidade, seus direitos civis e a soberania indígena.
Apesar das grandes dificuldades enfrentadas pelas organizações e comunidades indígenas como opressão do Estado corporativismo dos partidos políticos, caciquismo, entre outros, há uma forte resistência por parte dos grupos na luta pelo projeto nacional em busca de autonomia, a qual o levante zapatista em 1994 e a difusão da Outra Campanha são fatores essenciais para o fortalecimento das organizações indígenas já existentes e para legitimar o debate público em torno de um projeto nacional de autonomia.
Esperemos que não apenas os indígenas do México, mas todos da América latina recuperem o direito a uma vida digna, que possam não sobreviver, mas sim viver com conforto e com humanidade.
Para saber mais sobre Chiapas e o movimento Zapatista acesse o site abaixo. Tenho certeza que você vai achar muito interessante a leitura e as imagens sobre o movimento, a organização dos indígenas e, principalmente você vai achar, no mínimo muito interessante a figura do Comandante Marcos o chefe do Movimento Zapatista.
Chiapas: As Comunidades Zapatistas Reescrevem a História
A ARTE DO POVO ASTECA
A arte Asteca é predominantemente religiosa em seu politeísmo. É comum a representação dos diversos deuses e a construção de templos para a adoração religiosa. As vezes erguiam obras gigantescas como se desejassem enaltecer e afirmar a grandiosidade dessa adoração. O calendário Asteca, complexo e preciso, muito mais evoluído do que o calendário adotado pelos romanos do tempo do império, é motivo de admiração. Há um modelo que pesa perto de 25 toneladas, construído antes da chegada dos invasores. A peça esculpida tem 3,60 m de diâmetro e atualmente encontra-se no Museu de Antropologia do México.
O calendário Asteca é mais antigo do que o calendário gregoriano, criado em Roma pelo Papa Gregório e usado até hoje na maior parte do mundo. Os Astecas usavam 18 meses de 20 dias cada, representados por símbolos, cada um com um significado: crocodilo, vento, casa, lagarto, cobra, cérebro, veado, coelho, água, cachorro, macaco, ervas, cana, jaguar, águia, abutre, movimento, faca de pedra, chuva e flores. E acrescentavam mais 5 dias de sacrifício, perfazendo os 365 dias do ano. No centro, a representação do Deus Sol. Essa é uma das mais famosas peças antropológicas em todo o mundo.
Máscaras também foi um tema muito usado na arte asteca. É comum o uso de máscaras em várias religiões, como forma de representar divindades ou assombrações e os Astecas não fugiram dessa regra. Difere a forma de fabricação e o que se desejava representar, isto é, a figura. Os astecas fabricavam máscaras de diversas maneiras, inclusive com pedra.
A pintura foi grandemente usada em livros chamados Códices, equivalentes a manuscritos e que eram registros do conhecimento disponível. Os temas eram figurativos ou geométricos. Na cerâmica, construíam vasos e outros utensílios domésticos feitos com esmero e pintados com temas normalmente religiosos. O colorido era intenso.
A cidade de Tenochtitlán era realmente extraordinária como projeto arquitetônico. Possuía duas pirâmides, uma dedicada ao Deus Sol, com 63 m de altura e outra dedicada ao Deus Lua, com 43m. A cidade tinha uma avenida com 1.700 m de extensão, chamada Avenida dos Mortos, cheia de templos e monumentos.
Os Astecas desenvolveram muitas formas de manifestações artísticas, eram escultores, ourives, poetas, atores, dançarinos, pintores, mestres em cinzelagem, além de músicos.
Dentro de tamanha diversidade, havia, por certo, as artes mais importantes e mais praticadas, bem como as de menor importância. Comecemos, pois, com a escultura, uma arte que sempre esteve intrinsecamente ligada ao artesanato em si. No México (como também era denominada a cidade de Tenochtitlán), havia toda a sorte de esculturas, desde de divindades domésticas (antepassados míticos dos diferentes clãs) até esculturas em paredes, tais como jaguares, águias e outros animais. Os maiores escultores da cidade eram pertencentes a uma classe social específica, na realidade, como veremos depois, esta classe era uma verdadeira casta, devido à estagnação social em que se encontrava, a casta dos Toltecas, ou seja, os artesãos Astecas eram de origem Tolteca e haviam chegado a Tenochtitlán posteriormente à expansão Imperial, sendo assim, não constituíam uma parte normal da população.
Quanto à ourivesaria, nas próprias palavras de Cortez "tão natural o ouro e a prata que não há ourives no mundo que melhor fizesse". O conquistador estava certo, na realidade, os Astecas foram surpreendidos pelos Espanhóis em pleno apogeu da Idade do Bronze, dominavam com perfeição as técnicas de fundição e forja de diversos metais, no entanto, o ferro ainda não era conhecido. Os Mexicas (outro nome para os Astecas) também consideravam valiosas as plumas de aves, sendo estas incluídas na ourivesaria. As plumas tinham um valor tão grande dentro da cultura Asteca que serviam mesmo como divisor social, sendo atribuída a cada classe um tipo de pluma e sendo empregadas pesadas punições aos que utilizassem plumas relativas a uma classe hierarquicamente superior à sua.
A literatura Asteca era marcada por poemas nos quais a mistura de situações eram marcantes, pois neles não havia apenas um clima de alegria, ou de emoção, ou de amor, ou de tristeza, mas na verdade, todos os climas misturados, com situações cômicas se alternando com tragédias e posteriores romances.
A vida de governantes famosos era um dos objetos mais apreciados dos poetas para escreverem suas poesias, dentre estes soberanos, o preferido era Nezaualcoyotl, soberano de Texcoco, que reinou entre 1428 e 1472. Ele é considerado o maior poeta e pensador da civilização Asteca, além de ter se destacado como general, ao ajudar Itzcoatl, governante Asteca, a vencer a cidade inimiga de Azcapotzalco e, assim, formar a Tríplice Aliança.
A poesia estava intimamente ligada com o teatro, uma vez que muitos dos poemas eram escritos para serem representados por atores a membros das classes privilegiadas.
Não se pode deixar de ressaltar que a própria escrita Asteca constitui um espécie de arte, uma vez que era hieroglífica (semelhante à egípcia, onde não havia letra, mas sim símbolos que indicavam determinadas coisas, o que dificultava a formação das palavras). Na realidade, a escrita Asteca estava em evolução quando os Espanhóis chegaram. Começava a se tornar uma escrita sonora, mas ainda baseada nos hieróglifos, ou seja, algumas palavras que não tinha símbolos próprios eram formadas pela mistura de dois ou mais símbolos cuja pronúncia unificada se assemelhasse à pronúncia da referida palavra, para a qual não havia um símbolo específico eles misturavam dois glifos em um, ou seja, desenhavam uma árvore com dente.sendo assim, com a junção dos sons se chegava a algo parecido com Quauhtitlán.
As danças, bem como as interpretações, eram usadas para divertir os mais importantes, segundo Cortez, Motecuhzoma II (que ficou conhecido como Montezuma), tinha vários homens deformados, e outros tantos anões que dançavam e faziam coreografias bizarras para ele todos os dias durante suas refeições.
Os dançarinos profissionais tinham o intuito de divertir os poderosos, mas o povo, em suas festas, também dançava e sempre ao som de músicas, que eram escritas por poetas, ou apenas executadas com instrumentos próprios, como diversos tipos de tambores, gongos, chocalhos, guisos, reco-reco, flautas, flautas de pan, trombetas e conchas que seriam como uma espécie de castanholas.
IFCS - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
CORTEZ E MARINA, UMA HISTÓRIA DE AMOR E/OU TRAIÇÃO?
Cortez e Malinche
Estudar a história do México e da sua conquista envolve conhecer aquele que seria o grande conquistador do povo Asteca: Fernão Cortez. Quando os espanhóis chegaram ao México, no século XVI, a mais importante civilização da região era a dos Astecas, cujos domínios estendiam-se por todo o planalto de Anáhuac. Nessa área, situava-se a capital do império, Tenochtitlán, fundada em 1325. Nela, mais tarde, seria erguida a atual capital do país: a Cidade do México. Entre as características mais marcantes da civilização asteca, destacam-se a sua grande expressão militar e a diversidade de atividades econômicas que incluíam, além da agricultura baseada principalmente no cultivo do milho, o artesanato e o comercio.
O papel de Fernão Cortez no processo de dominação dos Astecas é de fundamental importância. Sem sua atuação eficiente os espanhóis teriam demorado bem mais para consolidar sua conquista sobre os indígenas. Cortez procurou conhecer o universo indígena antes de invadi-lo e conquista-lo. E isto foi possível devido aos intérpretes Jerônimo de Aguilar e principalmente da índia Malinche, que foi um dos presentes dos indígenas ao comandante espanhol.
Essa é uma história que até hoje não foi devidamente contada e explicada. Malinche ou Marina é uma figura sombria na história do México e da América. Mulher apaixonada, traidora do seu povo por amor? Ou apenas uma escrava asteca que se aproveitou da sua beleza e influência junto ao comandante espanhol para vingar-se do povo que destruíra sua tribo e escravizara seu povo?
No impressionante calhamaço de mil páginas escrito sem uma vírgula pelo soldado de Fernão Cortês, Bernal Díaz del Castillo, "Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España", o soldado nos conta que Cortez teve uma ajuda de fundamental importância para levar a cabo sua missão. Essa ajuda veio através de uma índia, filha de um cacique, dada a Cortês pelos naturais de Tabasco. Ela era uma das vinte mulheres que foram dadas a Cortez, em troca de paz e tranqüilidade. Malinche, uma mulher sobre quem a história se calou e que ganhou o nome de "doña Marina", tornando-se peça-chave da conquista como intérprete "porque sem ir dona Marina não podíamos entender a língua da Nova Espanha", diz o soldado. Os nativos, como não tinham a letra "r", transformaram-lhe o nome para "Malintzin", acrescentando o sufixo "tzin", indicativo de nobreza entre eles, nome que os espanhóis simplificaram para "Malinche". A importância dela era tal que o próprio Fernão Cortês passou a ser chamado normalmente de Malinche até pelos seus próprios comandados. Ao invés da mulher assumir o nome de seu homem, era ele quem assumia o nome de sua mulher.
De modo geral, o povo mexicano continua conhecendo muito pouco sobre essa mulher, considerada por eles como uma traidora. Ignoram eles que ela salvou milhares de vidas indígenas permitindo Cortez de negociar melhor com os Astecas. Sua habilidade de comunicar-se também permitiu aos espanhóis introduzir o cristianismo entre os índios e tentar terminar com o canibalismo entre eles.. Ela mesma converteu-se ao cristianismo, e foi uma grande defensora da sua nova fé.
Todos os historiadores concordam que era a filha de uma família nobre dos Aztecas. Quando Cortez chegou ao México, Marina tinha aprendido os dialetos de Maias usados no yucatan. compreendia Nahuatl, a língua do Aztecas e da maioria de indios de Non-Mayan.
"La Malinche" não escolheu juntar-se a Cortez. Foi-lhe oferecida como uma escrava pelo Cacique de Tabasco, junto com outras 19 mulheres jovens. Até então, Cortez tinha um espanhol, Jerônimo de Aguilar, como seu intérprete. Aguilar falava a língua de Maya,como o espanhol. Mas quando a expedição deixou a área Maya Cortez descobriu que não poderia se comunicar com os índios. Então, foi aconselhado que uma das mulheres dadas a ele em Tabasco servisse de intérprete e falasse o "mexicano.". Foi Marina que serviu como intérprete nas primeiras reuniões entre Cortez e os representantes de Montezuma. Marina traduziu o que o Aztecas disseram no dialeto de Maya compreendido por Aguilar e traduzido para Cortez no espanhol. O processo foi invertido então, espanhol a Maya e a Maya a Nahuatl.Em pouco tempo ela aprende o espanhol, o que aumenta a sua utilidade como intérprete.
Diaz fala dela somente como Marina ou Doña Marina. Assim de veio o conhecido Malinche? Diaz disse que como Marina estava sempre com Cortes, passou a ser chamada "Malinche" -- que o autor traduz para "capitão Marina." Prescott, no "Conquista do México," confirma que Cortes era chamado de "Malinche" que traduziu como capitão e definiu o "la Malinche" como "a mulher do capitão."
Os historiadores da atualidade não consideram Malinche como traidora. Segundo eles, ela era totalmente leal a Cortez, uma mulher que amava seu homem. E Cortez correspondia seus sentimentos. De vez em quando lhe eram oferecidas outras mulheres a Cortez, mas ele recusava-as sempre. Bernal Diaz comentou freqüentemente seu interesse para sua companheira "mexicana.". Porém, esses mesmos historiadores não a consideram importante para a conquista do México. Para eles, o apetite espanhol para o ouro, a epidemia que atacou os astecas e, naturalmente, a superioridade militar dos espanhóis, foram os fatores principais. O que há de concreto é que ela decididamente escolheu o campo dos conquistadores. Adota os valores dos espanhóis e contribui decisivamente para a realização dos seus objetivos.
É muito possível que sem ela, Cortez tivesse fracassado. Ele mesmo, em uma carta preservada nos arquivos espanhóis, disse que "após o Deus nós devemos este conquista da Nova Espanha a Doña Marina.". Foi ela que facilitou o contato entre Cortez e os chefes indígenas que procuravam aliados contra os Astecas, conhecidos pela sua brutalidade e sacrifícios humanos.
Sua contribuição para o sucesso da conquista é imenso, mas ela não pode ser a única responsável para que ele acontecesse. Em um grau muito maior do que a sua suposta "traição" podemos apontar a própria brutalidade dos Astecas: qualquer um dos povos dominados por eles que ousasse se rebelar, era reprimido com violência e eram vítimas de sacrifícios como castigo pela rebelião.A própria Marina teria sido escravizada depois que seu povo foi atacado e vencido pelos Astecas. Toda a tribo foi escravizada. Para os mexicanos, porém, ela representa a encarnação da traição dos valores nativos, da submissão servil à cultura e ao poder europeu.
Para Todorov, em A conquista da América, Malinche glorifica a mistura em prejuízo da pureza (asteca ou espanhola). Ela não se submete simplesmente ao outro, adota a ideologia do outro e a utiliza para melhor compreender a sua própria cultura, o que é comprovado pela eficácia do seu comportamento, embora "compreender" sirva, neste caso, para "destruir".
Após a conquista, Cortez, por ser casado na Espanha, arranjou para Marina um casamento com um castelhano, Don Juan Xamarillo.Logo depois disso desapareceu do historia.Marina teve com Cortez um filho, Don Martin Cortez. Muitas outras mulheres índias foram engravidadas por espanhóis,porém não se tem nenhum registro de seus filhos. Se o mexicano de hoje é uma mistura do sangue espanhol e indígena, o filho de Doña Marina seria o primeiro "mexicano" cuja vida nós podemos conhecer. Exerceu uma posição elevada no governo e foi um "Comendador" da ordem de St. Jago. Em 1548, acusado de conspiração contra o Vice Rei, foi torturado e executado.Marina também teve uma filha, D. Maria, com seu marido espanhol. Como mãe de dois filhos mestiços Marina pode ser considerada como a mãe da nação mexicana.
Malinche morreu aos setenta anos e educou os filhos à sua maneira. Cortez morreu na Europa em meio a uma série de problemas, inclusive de ordem econômica. Quem ficou rica e garantiu o patrimônio cultural, foi a Malinche, e não ele. Códices indígenas revelam que quem recebia os tributos, quem estava à frente no campo de batalha, até mesmo contra os indígenas, quem definia a estratégia de guerra, era a Malinche, e não o Cortez. Mas, a história só retrata a conquista como sendo Cortez o estrategista fundamental na conquista. Teria conseguido ele dar ordens em campo de batalha para os índios? Seria possível ser estrategista em terra desconhecida?
Nos tempos atuais, o termo "Malinchista" é usado por muitos historiadores para descrever aqueles que não gostam dos mexicanos. Mas Doña Marina merece mais respeito. Ela teve um papel principal na formação do que é hoje uma das sociedades mais dinâmicas em toda a América latina. Mesmo assim, é odiada em seu país. Leia o texto abaixo, traduzido de um jornal norte –americano:
Dos tempos de Nova York
Março 26, 1997
Uma figura histórica é odiada ainda por muitos no México
Por CLIFFORD KRAUSS
Cidade do México -- não há nenhum museu no St. de 57 Higuera,Quando os turistas estrangeiros tocam a campainha da casa de pedra, são afastado pelos proprietários. Os próprios mexicanos passam longe dessa casa, assustados pelas histórias de fantasmas que rondam o prédio e por causa das associações históricas que são feitas.
Malinche viveu na casa há quase 500 anos. Este foi também o lugar onde Cortez escreveu os crônicas de suas conquistas brutais para o rei Carlos V, e onde se acredita que ele estrangulou sua esposa índia por razões que são motivos de boato popular e de especulação histórica.
A Cidade do México tem os museus que comemoram sua arte moderna, seu passado indígena, selos, e mesmo a casa onde Leon Trotsky viveu e foi assassinado. Mas a única homenagem à mulher que ajudou a aliança de Cortez com várias nações indígenas contra os Astecas é considerada como um insulto.Para os mexicanos ser chamado de malinchista é ser chamado de amante dos estrangeiros, um traidor.
Para o México, fazer desta esta casa um museu, seria como se o povo de Hiroshima construísse um monumento para o homem que deixou cair a bomba atômica," disse Rina Lazo, um muralista mexicano proeminente que vive na rua Higuera 57 com sua família. "nós não somos malinchistas, nós queremos conservar a historia mexicana."
Para Octavio Paz, Malinche era "o encarnação cruel da condição feminina." Em seu livro "o labirinto do solidão," Paz escreveu, "a rejeição do povo mexicano à história de Cortez e Malinche revela que eles são figuras mais que históricas.São símbolos de um conflito interno que ainda não resolvemos."
Quinze anos atrás, os oficiais de Coyoacan construíram uma fonte e uma estátua representando Cortez, malinche e seu filho. As manifestações populares tornaram-se violentas e o monumento foi destruído.
Rina Lazo, o proprietário da casa diz que "os americanos e espanhóis continuarão a bater nesta porta, mas o mexicano somente baterá quando não houver mais nenhum ressentimento contra Malinche isso só acontecerá com o passar dos tempos e através do exame da história".
DAS CIVILIZAÇÕE PRÉ-COLOMBIANAS À CONQUISTA EUROPÉIA: A USURPAÇÃO DA AMÉRICA
Vamos iniciar o nosso estudo específico sobre a conquista européia e a usurpação da América. A partir daqui entraremos no que poderíamos chamar de a parte obscura e trágica dessa História da América. Aprofundaremos temas como a questão das epidemias que dizimaram milhões de índios. Compreenderemos como e por que os pré-colombianos foram dominados pelos europeus e não o contrário. Embarcaremos nas teorias de estudiosos e defensores do índios. Vamos desde o padre Bartolomeu de Lãs Casas, no século XVI, até o professor. Jared Diamond, no século XX. Mesmo com a distancia tão grande entre os dois, ambos se aproximam quando buscam tentar entender e explicar toda a destruição que aqui ocorreu no século XVI. Espero que vocês gostem do material que eu selecionei e que procurem ler as sugestões bibliográficas, além de acessar os sites indicados. Lembrem-se que um professor não pode ficar restrito a um programa, ou a um conteúdo. É necessário ter a visão geral do processo histórico, para poder entender o fato. Boa leitura.
A CIVILIZAÇÃO ANDINA
Entre todos os povos e culturas da América pré-colombiana, a região Andina, área de ocupação do Império Incaico, se destacou pelo alto nível de organização social e política encontrado quando da chegada dos europeus.
No seu apogeu, o império chegou a ocupar mais de um milhão e setecentos mil quilômetros quadrados, o equivalente a aproximadamente 9,5% da área da atual América Meridional.
Em meados do século XIV, o reino foi dividido em duas partes; a civilização, fragilizada, foi invadida pelos espanhóis e, não suportando a situação, entrou em decadência.
Vejamos agora um pouco sobre essa brilhante civilização: sua organização social, cultural, política e artística. Espero que gostem da seleção de fotos e que aprendam a admirar a grande produção artística desse povo.
POR QUE O IMPERADOR INCA ATAUALPA NÃO CAPTUROU O REI CARLOS I DA ESPANHA?
Uma das grandes questões a ser discutida no estudo das civilizações andinas refere-se à compreensão do por que essas civilizações foram dominadas com relativa "facilidade' pelos europeus, uma vez que elas também formavam grandes impérios, poderosos, avançados e guerreiros". Como explicar essa dominação?
Optamos por discutir essa questão utilizando os estudos do prof. Jared Diamond, autor de uma obra científica que conquistou o Premio Pulitzer de 1998 ao mostrar como a história e a biologia podem se enriquecer mutuamente, produzindo uma compreensão mais profunda da condição humana: Armas, Germes e Aço.
Prof. Jared Diamond
Por meio de uma intrigante revisão da evolução dos povos, em uma viagem através de 13.000 anos de história dos continentes, Jared Diamond conclui que a dominação de uma população sobre outra tem fundamentos militares (armas), tecnológicas (aço) ou nas doenças epidêmicas (germes), que dizimaram sociedades de caçadores e coletores, assegurando conquistas. Assim, alguns povos desenvolveram a tecnologia que proporcionou a expansão de seus domínios e aumentou a resistência a doenças, entre outros fatores, conferindo-lhes grande poder político e econômico.
Valendo-se da geografia, da botânica, da zoologia, da arqueologia e da epidemiologia, Diamond nos faz ver como a diversidade humana é o resultado de um processo histórico e não de particularidades referentes à inteligência ou aptidões. Ele conclui que a história seguiu determinados rumos para os diferentes povos devido às diferenças entre ambientes e não às diferenças biológicas
Por que alguns povos se desenvolveram e outros não? Por que um punhado de países domina boa parte do planeta durante muito tempo? Essas são perguntas de difícil resposta. No entanto, o fisiologista Jared Diamond acredita que há conhecimento científico suficiente para respondê-las, organizadamente. No livro o autor explica quais foram os fatores de sucesso dos povos que moldaram a civilização de hoje. Ordenadamente, descreve a importância do desenvolvimento da agricultura e da pecuária para gerar excedente alimentar e como esse salto inicial foi o começo de uma cadeia de evoluções subseqüentes, que passaram por estágios como a criação de exércitos, o aperfeiçoamento de armas de aço, a invenção da ciência e a aquisição de imunidade a doenças causadas por animais. Segundo Diamond, são esses os fatores que explicam por que os europeus que aportaram na América venceram os povos nativos. O autor também destaca o papel do clima e da localização geográfica dos povos. Segundo ele, os ameríndios foram prejudicados porque não tinham grandes animais passíveis de domesticação para montar, pastorear e puxar arados, como os asiáticos e os europeus, com seus bois, ovelhas e cavalos. Além disso, o autor explica por que o clima úmido do norte da Europa e do Japão ajudou esses países a produzirem alimentos fartamente e derrubar suas florestas sem esgotar o solo, como ocorreu com os povos da Mesopotâmia. A obra consegue expor, de forma sucinta e clara, inúmeras peças do complexo jogo da evolução das sociedades.
Do livro do prof. Diamond, vamos extrair um dos capítulos mais interessantes, intitulado Por Que O Imperador Inca Ataualpa Não Capturou O Rei Carlos I Da Espanha, onde ele tenta exatamente explicar por que os Incas foram dominados pelos espanhóis e não o contrário.
Resumidamente, o episódio da conquista do Peru envolve momentos de dramaticidade, e o mais forte dele é aquele do encontro entre o Imperador Inca Ataualpa e Francisco Pizarro, representante do rei Espanhol Carlos V, o mais poderoso rei da Europa. Enquanto Pizarro trazia apenas 160 esfarrapados soldados, o Imperador Inca estava em seu próprio território e estava cercado por seu exército de 80.000 homens. Mesmo assim, Pizarro conseguiu aprisionar Ataualpa, transformou-o em seu prisioneiro por oito meses e obteve por ele um dos maiores resgates da história. Ouro que daria para encher um quarto de aproximadamente 6,6 m de comprimentos, 5,5 m de largura e 2,5m de altura. Mesmo assim, após receber o pagamento, Pizarro matou Ataualpa. Por que isso aconteceu? Os fatores resultaram na captura do Imperador Inca são os mesmos que explicam o choque entre colonizados e colonizadores em várias outras partes do mundo.
Como entender que um grupo de espanhóis esfarrapados e apavorados tivesse conseguido dominar um exército poderoso com quase 80.000 homens e aprisionar o Imperador? Como Ataualpa caiu naquela armadilha de Pizarro?
As vantagens militares de Pizarro estavam nas espadas de aço e em outras armas, armaduras de aço e nos cavalos. Contra essas armas, as tropas de Ataualpa, sem animais para montar, tinham apenas pedras, bronze e tacapes de madeira e machados, além de bodoques e panos alcochoados como armaduras. Esse desequilíbrio foi decisivo em vários outros confrontos de europeus com nativos americanos e com outros povos.
Os únicos nativos americanos capazes de resistir à conquista dos europeus foram aqueles que reduziram a disparidade militar, adquirindo e aprendendo a lidar com cavalo e armas. nós nos esquecemos facilmente que cavalos e rifles eram desconhecidos dos nativos americanos. Eles foram trazidos pelos europeus e possibilitaram uma grande transformação entre os indígenas que começaram a usa-los. Graças ao domínio sobre eles os nativos americanos lutaram contra os invasores brancos e só foram dominados por conta de operações militares de grande porte.
A superioridade do armamento dos espanhóis levaram ao fracasso todas as tentativas de reação dos incas contra os europeus. Por volta de 1700 as espadas haviam sido substituídas pelas armas de fogo, favorecendo os europeus contra os nativos americanos e outros povos.
O prof. Jared afirma, porém, que as armas tiveram um papel secundário na conquista dos Incas. Elas eram difíceis de carregar e disparar, e Pizarro possuía apenas 12 arcabuzes. Produziam um grande efeito psicológico, quando eram disparadas, porém muito mais importantes foram as espadas de metal dos espanhóis, as lanças, as adagas que estraçalhavam as armaduras. Os rústicos tacapes dos índios serviam para bater e ferir os espanhóis e seus cavalos, mas raramente matavam.
Por outro lado, o aço dos espanhóis, suas armaduras e escudos garantiam uma defesa efetiva contra os tacapes, enquanto os frágeis acolchoados dos Incas não ofereciam qualquer proteção contra pó aço dos espanhóis.
Outro fator que facilitou a dominação dos Incas vem de uma epidemia de varíola que se alastrou entre os índios sul-americanos após a chegada de colonos espanhóis ao Panamá e a Colômbia e por volta de 1526. Entre as vítimas estava o imperador Inca Huayna Cápac e seu herdeiro Ninan Cuyuchi, Essas mortes precipitaram uma disputa pelo trono entre Ataualpa e seu irmão Huáscar e dividiu o império. Se não fosse a epidemia, os espanhóis teriam encontrado um império unido.
Alem da varíola, doenças como sarampo, gripe, tifo, peste bubônica e outras doenças infecciosas endêmicas na Europa, tiveram um papel decisivo nas conquistas européias, Em todas as Américas, as doenças introduzidas pelos europeus se alastraram de uma tribo para outra bem antes do avanço dos próprios europeus, matando um percentual calcudado em 95% da população nativa da América pré-colombiana.
Aqui nos restaria perguntar como o faz o prof. Jared em seu livro: Como Pizarro chegou ao Peru? Por que Ataualpa não tentou conquistar a Espanha? A resposta é relativamente simples e o prof. Jared aponta vários motivos para isso:
- Pizarro chegou ao Peru graças à tecnologia marítima européia, que permitiu a construção de navios que o levaram, através do Atlântico, da Espanha até o Panamá, e depois, pelo Pacífico, do Panamá ao Peru. Sem essa tecnologia, Ataualpa não poderia ter expandido seus domínios para fora da América do Sul. Não pode, portanto, conquistar o reino espanhol de Carlos V.
- Pizarro dependia de uma organização política centralizada que permitiu à Espanha financiar, construir, contratar gente e equipar os navios. Ataualpa também tinha uma organização centralizada no seu império, mas isso acabou se transformando numa desvantagem, pois ao dominar o imperador inca, Pizarro dominou todo o seu império.
- Outro fator relacionado com a chegada dos espanhóis à América, refere-se à escrita, conhecimento que a Espanha dispunha e os incas, não. O domínio sobre essa escrita transformou as informações levadas pelos espanhóis sobre a América, para a Europa. Essas informações fizeram com que os espanhóis se espalhassem pelo mundo.
Tentar entender o porquê Ataualpa caiu na armadilha de Pizarro, envolve também o seu desconhecimento sobre os espanhóis, sua superioridade militar e suas intenções. Baseado em informações incorretas de um enviando que afirmou serem os espanhóis desorganizados e que poderiam ser controlados por uns 200 índios. Nunca ocorreu ao imperador que ele deveria temer os espanhóis e que eles poderiam atacá-los sem nenhuma provocação.
Resumindo, o fato de conhecerem a escrita fez os espanhóis herdeiros de uma imensa quantidade de conhecimentos sobre o comportamento humano. Já Ataualpa não tinha nenhuma idéia sobre os espanhóis invasores vindos do outro lado do oceano, e também nunca havia ouvido falar ou lera sobre ameaças semelhantes a quem quer que fosse, em nenhum outro lugar, em qualquer ocasião na história. Esse abismo entre suas respectivas experiências estimulou Pizarro a montar sua armadilha e Ataualpa, a cair nela.
A captura de Ataualpa por Pizarro ilustra, portanto, o conjunto de fatores que resultaram na colonização européia do Novo Mundo e não na colonização da Europa pelos nativos americanos. Esses fatores foram a tecnologia militar baseada em armas de aço e cavalos, doenças infecciosas endêmicas, tecnologia marítima européia, organização política centralizada dos europeus e a escrita.
Procure conhecer um pouco mais sobre a história de Ataualpa e Pizarro clicando aqui.
A TERRA É DE QUEM TRABALHA:
EXISTIRIA UMA SOCIEDADE SOCIALISTA ENTRE OS INCAS?
O modo de existência dos Incas até 1438 deve ter sido semelhante ao dos povos vizinhos: a economia baseava-se na agricultura primitiva ( batata, milho) e na criação de lhamas e alpacas. Ocupavam um pequeno vale fértil próximo de Cuzco e estavam divididos em clãs, chamados de ayllus. O ayllu era o núcleo social básico do antigo peru, formado por indivíduos aparentados, e a descendência entre eles era patrilinear. Cultuavam um antepassado místico e cada com unidade possuía terras, pastos e bosques comuns. O trabalho era coletivo e, como em qualquer outra comunidade primitiva, o chefe possuía autoridade moral sobre os membros do grupo. O trabalho agrícola comum servia para manter este chefe e a sua família isentos do trabalho nos campos.
Durante o reinado de Pachacútec, os incas transformaram-se de simples cultivadores e pastores em um povo dominante na área andina, exercendo seu poder desde o Equador até o Chile. A passagem das comunidades sem classes e sem propriedade privada para a complexa economia de um império implicou em transformações na antiga estrutura da sociedade, a começar pela estrutura familiar.
No império, a terra pertencia ao Estado, assim como a maior parte dos rebanhos e as minas. Os camponeses dos ayllus trabalhavam coletivamente a terra, que era dividida em propriedades do Estado (Imperador), do sol (sacerdotes) e da comunidade (ayllu). As terras comunais eram redistribuídas anualmente, pelos funcionários, a cada família, em lotes maiores ou menores, proporcionalmente ao número de membros.
Durante o reinado de Pachacútec, os incas transformaram-se de simples cultivadores e pastores em um povo dominante na área andina, exercendo seu poder desde o Equador até o Chile. A passagem das comunidades sem classes e sem propriedade privada para a complexa economia de um império implicou em transformações na antiga estrutura da sociedade, a começar pela estrutura familiar.
No império, a terra pertencia ao Estado, assim como a maior parte dos rebanhos e as minas. Os camponeses dos ayllus trabalhavam coletivamente a terra, que era dividida em propriedades do Estado (Imperador), do sol (sacerdotes) e da comunidade (ayllu). As terras comunais eram redistribuídas anualmente, pelos funcionários, a cada família, em lotes maiores ou menores, proporcionalmente ao número de membros.
Segundo o prof. Aquino em seu livro História das Sociedades Americanas, a inexistência de propriedade privada nos meios de produção e a propriedade estatal da terra, campos de pastagens, rebanhos, além do rígido controle econômico do Estado sobre a produção das aldeias, a realização das grandes obras coletivas e a centralização político administrativa induziram à falsa idéia de uma economia socialista entre os índios. Os autores especializados na História incaica, têm visões diferentes a respeito do assunto.
As produções teóricas européias dos fins do Século XIX e do início do Século XX sobre o Império Inca davam conta de um império baseado na igualdade universal, no qual não existia a propriedade privada e predominava o comunismo primitivo.
Basta lembrar, entre outros, o historiador francês Marmontel, o qual trazia a público esta visão em 1836 através do estudo Les Incas où la destruction de l'Émpire du Perou; o alemão Heinrich Cunow, que em 1896 dava o subtítulo "Uma investigação do antigo comunismo agrário peruano" para sua obra Die soziale Verfassung des Inkareisches ("A constituição social do Império Inca"); e o economista francês Louis Baudin34, que em 1928 editou o clássico L'Empire socialiste des Inka, traduzido em 1940 para o espanhol.
Mesmo o contemporâneo economista peruano José Carlos Mariátegui afirmava que o Estado Inca foi "uma agrupação de comunas agrícolas e sedentárias" e teve "uma economia socialista". Idealização romântica do passado? Talvez. Em todo caso, Mariátegui fazia uma distinção categórica entre o comunismo agrário e despótico das civilizações pré-colombianas e o comunismo de nossa época, herdeiro das conquistas materiais e espirituais da modernidade. Em uma longa nota de rodapé, que é, em realidade, um dos momentos fortes do livro Sete Ensaios, Mariátegui traz o seguinte esclarecimento que, setenta anos mais tarde, não perderia nem um pouco sua atualidade:
"O comunismo moderno é algo diferente do comunismo incaico... Um e outro 'comunismo' são o produto de experiências humanas distintas; pertencem a distintos períodos históricos; são elaborados por civilizações dessemelhantes. A dos incas foi uma civilização agrária. A de Marx e Sorel é uma civilização industrial. A autocracia e o comunismo são incompatíveis em nossa época; mas não o foram nas sociedades primitivas. A nova ordem, hoje, não pode renunciar aos progressos morais da sociedade moderna. O socialismo contemporâneo - outras épocas passaram por outros tipos de socialismo designados pela História por diversos nomes - é a antítese do liberalismo, mas ele nasce em seu seio e se alimenta de sua experiência. Ele não desdenha nenhuma de suas conquistas intelectuais, ele apenas despreza e denuncia suas limitações"
De acordo com todas as fontes, porém, e a despeito de no Estado Imperial Inca vigorar simultaneamente vários modos de produção econômica (comunal primitivo, escravagista e até mesmo feudal, especialmente em seus últimos anos), talvez então conformando um modelo próprio e singular, até já chamado de "modo de produção inca", percebe-se que o modo de produção predominante em todo o território do império não era comunista ou socialista, mas, sim, bastante próximo ao encontrado em antigos reinados orientais, no que diz respeito a seus constituintes infraestruturais básicos e à articulação entre estes, donde a possibilidade de classificá-lo então como modo de produção asiático (também entendível como comunal- tributário, segundo alguns).
Segundo Waldemar Espinoza Soriano "o Estado Inca não se preocupava com todos os aspectos da vida do ayllu, cuja existência se definia pela posse de terras, pastos, bosques e águas e pelo exercício de aynis¹ e mingas² controlados por seus próprios curacas³ . O que se via era a preocupação do Estado de deixar para cada ayllu as terras necessárias para sua produção e reprodução agropecuária, mediante o trabalho familiar, intervicinal e coletivo".
Além disso, o modo de produção asiático apresenta os seguintes traços característicos, todos também presentes no modo de produção predominante em todo o império inca (e vários deles ainda vigentes na atualidade, em grande parte das comunidades andinas):
- organização da sociedade em comunidades aldeãs que conservam através dos tempos uma grande coesão;
- predomínio da propriedade coletiva do solo;
- união íntima entre agricultura e artesanato;
- produção quase exclusiva de valores de uso, tornando desnecessária a existência de moeda (ou valor de troca);
- poder central despótico que retém o excedente da produção social em seu próprio benefício (elite dirigente), redistribuindo parte deste excedente através de suas práticas de mando e poder;
- regulamentação, pelo poder central despótico, das grandes obras agrícolas, principalmente as de irrigação nas zonas áridas.
Podemos concluir afirmando que a existência de classes sociais dominantes (chefes militares, altos funcionários e sacerdotes), sustentadas pela apropriação do excedente de produção e do trabalho dos camponeses das aldeias afasta qualquer hipótese mais séria da existência de um estado socialista (que pressupõe a inexistência da exploração de uma classe por outra) entre os incas, cujas massas populares não se beneficiavam (ou se beneficiavam muito pouco) do que era produzido coletivamente. O mais correto é tentar compreender a economia inca dentro da noção de modo de produção asiática. Pretender conceitua-la como socialista é ignorar a articulação necessária entre relações de produção e nível de desenvolvimento das forças produtivas; é, no mínimo, querer colocar o carro na frente dos bois...
Se você quiser aprofundar seus conhecimentos sobre a forma econômica dos Incas, acesse o site abaixo, onde você poderá fazer o dowloand de uma obra completa sobre esse povo.
Estudo completo sobre o maior Império da América Pré-colombiana
ARTES E SABERES DA CULTURA ANDINA
Aquilo que conhecemos como Civilização Andina compreende vários tipos de culturas que se desenvolveram na região andina antes da instituição do Império Incaico. O conjunto, espalhado pela costa e pela serra, teve seu apogeu entre 300 e 900 d.C. entre as civilizações que faziam parte da região andina podemos citar:
- Chavin
É a mais antiga cultura andina, existiu entre 900 e 200 anos a.C.. Os Chavins era uma sociedade composta por agricultores, composta por diferentes grupos regionais. A capital dos Chavin era Huantar na região nordeste do Peru.
Nazca
Civilização misteriosa do sul do Peru, era uma civilização pequena mas social. Seu inicio foi feito antes de cristo, mas seu povo desapareceu com a chegada dos espanhóis. A maior evidência da cultura dos Nazcas é os grandes enormes desenhos em séries que atravessam costa desértica do sul do Peru, que só podem serem vistos do ar. O maior é um pássaro que tem 275 metros de comprimento.
- Tihuanaku
Nome dado por causa de sua cidade Tiahuanaku , fundado em 800 a.C. as margens do algo Titicaca, Na parte Boliviana a cidade foi ocupada por cinco vezes , é cpomposta por cinco cidades sobrepostas. Foi abandonada sem nenhum motivo aparente.
- Chibcha
Civilização que viveu no território colombiano e foi destruída pelos espanhóis no século XVII. Foi a civilização que deu origem ao mito do Eldorado.
- Mochica
Floresceu ao nordeste do Peru em mais ou menos 200 a.C. e durou até 600d.C., Foram os que utilizaram o sistema de irrigação na agricultura. Também melhoraram e sofisticaram os templos moradias e esculturas. Faziam um grande culto ao sexo em suas esculturas.
- Chimu
Civilização estabelecida na costa nordeste do Peru até desde 1000d.C. até 1470 quando se uniram aos Incas, sua população chegou aos 100 mil habitantes e expandiu pelos andes por Nancen Pinco depois de 1370.
- Incas
Foi a maior e mais organizada civilização da América, tinha o maior território e maior contingente ao passar dos anos conseguiu unificar a maioria do território andino, seu auge teve inicio em 1438 e durou até 1532 quando Francisco Pizzaro invadiu e destruiu toda a cultura e a crença do povo mais unido e organizado da América. Por causa disso, geralmente ligamos a cultura andina à própria cultura inca.
Mesmo que eles não tenham influenciado senão as tribos mais próximas de Cuzco, sua capital, e os chefes das etnias construtivas do Império, cuja população, em seu conjunto, continuou a viver segundo os antigos costumes. Mesmo enriquecida pela contribuição cultural dos Chimu, permaneceu fiel ao seu ambiente natural. Rude, mais que austera: assim se apresentava ela através de suas obras, como também do ponto de vista de muitas que a haviam precedidos nos Andes.
Os Incas inovaram pouco. Eles recolheram a herança de um longo passado durante o qual foram inventadas, experimentadas e às vezes levadas à mais perfeita expressão as técnicas que eles desenvolveriam intensamente. Mais do que aquilo que eles acrescentaram a essa herança, sua originalidade decorre dos empréstimos seletivos que fizeram e da maneira pela qual os empregaram e agenciaram.
Vamos então conhecer alguns aspectos dessa cultura andina/incaica, identificar suas características e, principalmente, nos admirar coma beleza de suas produções artísticas, de suas artes e saberes.
A cultura inca — resultado da mistura das culturas preexistentes na região andina — era muito rica, principalmente no que se refere à arte, intimamente ligada à ciência, à religião e ao cotidiano. A ourivesaria inca possuía caráter funcional e ornamental; o desenho das peças, aspecto de desenhos geométricos. O figurativismo das estatuetas de metal era bem estilizado, tendo a cabeça mais trabalhada que o restante do corpo. A prata era um dos metais mais apreciados para as peças suntuosas, embora se tivesse conhecimento de metais como o ouro. Nessa arte, destacam-se também as facas de sacrifício. As construções arquitetônicas, apesar da austeridade em relação às dos maias e astecas, não possuem hoje ornamentos esculpidos, o que se deve principalmente ao fato de os espanhóis terem extraído os trabalhos de escultura em ouro que revestiam as paredes dos aposentos internos. As construções arquitetônicas incas, apesar da austeridade em relação às dos maias e astecas, não possuem hoje ornamentos esculpidos, o que se deve principalmente ao fato de os espanhóis terem extraído os trabalhos de escultura em ouro que revestiam as paredes dos aposentos internos. Mas o que marcou a arquitetura inca, foi o trabalho com a rocha; obras civis de pouca importância, fortalezas, torres, templos, palácios e edifícios do governo tinham em suas estruturas pedras arduamente trabalhadas e esculpidas pelos trabalhadores incas. Tais pedras eram constituídas do mais puro granito branco e seus vértices esculpidos em diversos ângulos (de até 40 graus) de tal maneira que os blocos se encaixassem perfeitamente uns nos outros sem a utilização de argamassa ou cimento e que o espaço entre um bloco e outro fosse impenetrável mesmo pela mais fina lâmina. As pedras, para que pudessem resistir aos freqüentes tremores de terra, tinham forma trapezoidal e eram tão pesadas que chegavam a atingir três toneladas.Não se sabe o tipo de instrumento utilizado na construção das cidades incas, já que não há vestígios de ferramentas ou rodas. Nativos da região dizem que tais ferramentas seriam feitas de hematita, oriunda de meteoritos. Segundo os cientistas, essa hipótese é um tanto improvável. É incontestável a engenhosidade de certas construções incas, como por exemplo, os canais que transportavam água a poderosas cisternas, para que fosse enfim armazenada sem desperdícios, ou mesmo os diversos níveis de terraços, nos terrenos íngremes da região, que permitiram um melhor aproveitamento da terra para a agricultura.
A posição privilegiada de Macchu-Picchu permitiu a execução de profundos estudos científicos e muitos cultos religiosos, principalmente no que se refere ao sol. Por isso, a cidade era considerada um verdadeiro santuário. De seu conjunto arquitetônico, formado por mais de 200 edifícios, destacam-se o Observatório Solar e dois grandes templos: o Principal e o das Três Janelas. No Observatório, encontra-se a Intihuantana ("lugar de pouso do sol"), uma pedra sagrada que tinha como objetivo o culto ao deus Sol ("Inti"), e que servia como instrumento científico para as observações astronômicas e cálculos meteorológicos sobre a forma redonda do céu que ajudavam a prever a época propícia para a colheita. Os conhecimentos de Geometria e Geografia adquiridos pelos cientistas incas foram provavelmente utilizados nas construções de cidades famosas como Macchu-Picchu, Cuzco e Ollantaytambo. Para o posicionamento de determinadas construções, como os prédios da cidadela de Macchu-Picchu, os incas deveriam saber a exata localização dos pontos cardeais e saber o local exato do nascer e do pôr do Sol no horizonte nos dias de equinócios. Como eles poderiam sabê-lo, já que a cidade é cercada pela Cordilheira dos Andes e não se pode ver o sol tocar o horizonte? Talvez o tenham feito através de observações sistemáticas do movimento do sol no céu.
Pouco se conhece de Cuzco, anterior à conquista dos espanhóis. Dizem que foi fundada em torno dos séculos XI e XII d. C. pelo Inca Manco Cápac, segundo uma lenda é proveniente do lago Titicaca. Cidade sagrada e capital do Império Inca do Tawantinsuyu foi o centro do governo das quatro extensas regiões do fabuloso Império Incaico que chegou a abarcar grande parte do que é atualmente o Equador, Peru, Bolívia, Argentina e Chile. Em 1534, Francisco Pizarro fundou sobre a cidade de Cuzco uma cidade espanhola, que se con
Se tivéssemos tempo e espaço passaríamos muito tempo nos deliciando com as fotografias que mostram as maravilhas da cultura andina. Acessem sites de busca, em imagens e peçam exemplos da cultura indígena. São fotografias belíssimas que valem a pena serem vistas. Se puderem vão até o Peru, organizem uma excursão. Viajar é sempre muito bom, ainda mais para lugares como esses, testemunhas da história e carregadas de boas energias. Por enquanto, acessem o site abaixo e boa viagem.A PROFECIA DE LAS CASAS
"No que diz respeito aos seres humanos, vê-se que desde os primórdios da natureza racional, eles nasceram livres... Pois a liberdade é um direito necessariamente instilado no homem desde os primórdios de sua natureza racional, e portanto, deriva da Lei Natural..."
- Bartolomeu de Las Casas (1474-1566)
Bartolomeu de Las Casas nasceu em Sevilha na Espanha, filho de um mercador que embarcou para a América Latina na segunda viagem de Colombo, em 1493. Quando retornou para a Europa, seu pai lhe levou um escravo índio de presente. Estudou Direito na Universidade de Salamanca, onde os Dominicanos estavam travando uma luta no campo da moral que surgiu com a conquista do Novo Mundo. Ambivalente quanto essas questões morais, em 1502, Las Casas aventurou-se na ilha Hispaniola (atualmente República Dominicana e Haiti), conseguiu uma fazenda e tomou para si alguns nativos americanos como escravos. Ajudou várias expedições de conquista, recebendo como recompensa indígenas como escravos. Começou a ensinar os indígenas o catecismo, mesmo sendo leigo. Alguns anos mais tarde, a Ordem Dominicana dos Pregadores chegou em Hispaniola, condenando todo o sistema de escravidão como tirânico e mau. Essa pregação afetou profundamente Las Casas. Depois de um período de orações e reflexões ele tornou-se padre por volta de 1512. Foi ordenado através dos Bispos de Porto Rico. Como Sacerdote, participou da conquista de Cuba tendo sido o primeiro a celebrar a primeira missa em Hispaniola .
Ele foi nomeado capelão da Armada Espanhola durante a invasão de Cuba. Testemunhou, em primeira mão, o massacre dos povos nativos. Viu com os próprios olhos o comandante da conquista de Cuba degolar sete mil índios. Las Casas Recebeu como pagamento pelos seus serviços, terras e índios. Porém, neste período decidiu abandonar suas posses, seus escravos e consagrar a vida á defesa dos indígenas do Novo Mundo.
Las Casas retornou à Espanha no ano seguinte para apresentar o pleito pedindo ao Conselho das Índias e ao rei Fernão, o fim dessas atrocidades contra os povos nativos. Desejando evitar essa situação, o rei concedeu a Las Casas o título de "protetor dos índios" e outorgou inúmeras leis que pretendiam, de forma ostensiva, retificar a situação. No entanto, depois de menos de um ano e outra viagem de volta à Espanha, Las Casas percebeu que o rei não pretendia forçar os colonizadores a obedecer às leis recém-promulgadas. Determinado a continuar em sua demanda pela liberdade dos nativos americanos, Las Casas voltou a Hispaniola, libertou seus próprios escravos, e ingressou na Ordem Dominicana em 1522.
Após algum tempo, se apresentou ao Imperador Carlos V com um plano de colonização pacífica. Este projeto visava fundar povos indígenas livres e comunidades de lavradores hispano-índios. O Imperador aprova o plano de Las Casas.
A idéia era introduzir um sistema colonial de trabalho misto, propondo remédios para manter viva a população nativa viva. Porém suas tentativas não foram bem sucedidas, devido a falta de entendimento dos índios, dificultarão por parte dos colonizadores espanhóis, que não acreditaram no projeto e a falta de verba para colocar em prática suas ideologias.
Os remédios propostos por Las Casas Eram:
• Proibir trabalho Indígena, com o objetivo de repovoamento. Este tipo de trabalho, só poderia ser feito em parceria com lavradores espanhóis.
• Possibilitar a todos uma vida mais humana, fazendo-os vivem em comunidade.
• O alvo de Las casas era criar um sistema colonial que substituísse o atual, visando a proteção e garantindo a justiça para os índios, evitando que ocorressem mais massacres no Novo Mundo.
Após a frustração de seu projeto de Colonização Pacífica, Las Casas começa a redigir uma obra chamada de "A brevíssima relação da destruição das Índias". Um livro polêmico onde narra o processo de conquista do Caribe, América Central, México, Colômbia, Venezuela e Peru. Neste livro Las Casas narra a sangrenta participação dos soldados espanhóis na conquista. Vejamos um trecho:
"Os espanhóis, com seus cavalos, espadas e laças começaram a praticar crueldades estranhas; entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e parturientes e lhes abriam o ventre e faziam em pedaços como se estivessem golpeando cordeiros fechados em seu redil. Faziam apostas obre quem, de um só golpe de espada, fenderia e abriria um homem pela metade, ou quem mais habilmente e mais destramente e um só golpe lhe cortaria a cabeça, ou ainda sobre quem abriria melhor as entranhas de um homem de um só golpe."
Com o fracasso de seu projeto, Las Casas começa a incentivar a escravidão negra como meio de resgatar os índios da escravidão. Ele fazia isto, devido a influência da época de que os negros haviam sido escravizados ha mais tempo, e por isto eram acostumados ao trabalho forçado. Mais tarde, Las Casas Reconheceu que este tipo de escravidão era tão repugnante quanto a escravidão negra, e se retratou do incentivo que dera contra os negros.
Las Casas viveu em São Domingos por 12 anos, onde dedicava-se a trabalhos literários. Tendo ido a Nicarágua, teve de fugir para a Guatemala devido a reação dos colonizadores contra suas idéias pacifistas a respeito da colonização.
No Ano de 1537, o papa Paulo III, através de encíclica reconhece oficialmente a dignidade do índio, e que ele possui alma. Em 1540 Las Casas publica algumas de suas obras, que influenciam as idéias de Francisco de La Vitória, o qual irá exercer grande papel na elaboração de novas leis regedoras do processo da conquista. Devido ao impacto das obras de Las Casas, Carlos V promulga as leis de acordo com as quais os índios recuperam a liberdade, e promove Las Casas a Bispo da região do México, na província de Chiapas. Contudo, a oposição por parte dos colonizadores foi tão intensa, que o próprio Rei foi obrigado a modificar tais leis, para que os abusos pudessem continuar com o apoio da coroa. Las Casas, porém permanece irredutível em seu território de Bispado, chegando a negar a absolvição aos donos de escravos que faziam com ele sua confissão. Em 1550 renuncia a seu bispado, e passa seus últimos dias como consultor de governadores e missionários. A luta de Las Casas contra a colonização violenta durou até os seus 92 anos quando morreu, no ano de1566.
As Ideologias de Las Casas
Para Las Casas, evangelização realiza-se em conjunto com condições justas e humanitárias. Paz e Justiça são somadas ao anúncio das Boas Novas, a hispanização não era vista por ele como um processo necessário. Não desanimou, e antes de propor alternativas, fez uma análise profunda da situação.
Las Casas viu que algo estava errado, e não mediu esforços para tentar mudar. Porém não conseguiu seguidores que trabalhassem em conjunto com ele nesta luta. Sus obras foram proibidas em diversos lugares da América Latina e Europa.
Las Casas apresenta em sua literatura, uma leitura crítica da colonização espanhola, e mostra a presença do "demoníaco" por trás da ação dos motivos da conquista. Sua percepção nos leva a reconhecer que a fé cristã não era tão absoluta na mentalidade do governo, como se pressupunha. Mostrou que quem mais perdeu com a colonização defeituosa e doentia da América, foi o cristianismo. Para ele, Deus foi ultrajado neste processo de conquista.
A Profecia de Las Casas
O escritor Tzevetan Todorov em seu livro A Conquista da América, a questão do outro, comenta o que ele chama de a profecia de Las Casas, espécie de testamento que o padre espanhol escreveu no final da vida. Foram essas as suas palavras:
"Creio que por causa dessas obras ímpias, criminosas e ignominiosas, perpetradas de modo tão injusto, tirânico e bárbaro, Deus derramará sobre a Espanha, bem ou mal sua fúria e sua ira, porque toda a Espanha, bem ou mal, teve o seu quinhão das sangrentas riquezas, usurpadas à custa de tanta ruína e extermínio."
Bartolomeu de Las Casas - que inicialmente veio à América como explorador - converteu-se à causa indígena pela pregação dominicana, tornando-se, no século XVI, um dos principais defensores destes povos ameríndios frente aos abusos e violência promovidos pelo processo de colonização. Por isso ficou conhecido como "apóstolo da América" e um dos "pais do Direito Moderno". A profecia que profere representa importante objeto de análise, não só pela riqueza de elementos de âmbito sócio-econômico, mas também por apontar para o futuro, futuro este que constitui o nosso presente. Evidentemente, para não incorrermos no erro do anacronismo, o pensamento de Las Casas precisa ser situado no seu contexto temporal, contexto esse marcado, sobretudo pelo imaginário religioso cristão que se caracterizava pela mentalidade de que os acontecimentos históricos estão abarcados pela vontade divina. A profecia de derramamento da ira divina sobre os representantes futuros da civilização européia se cumpriu? Todorov afirma que alguns acontecimentos históricos recentes parecem dar razão a Las Casas. Entretanto, afirma que mesmo sofrendo crises econômico-sociais, ou ainda guerras e calamidades, ou seja, por pior que venha a ser o presente/futuro dos Estados europeus, tais conseqüências jamais poderão equilibrar a balança de crimes perpetuados pelos mesmos nos territórios americanos.
Desta afirmação de Todorov, podemos concluir que, mesmo apresentando algum caráter cíclico em determinadas situações, os fatos históricos são ímpares e de impossível repetição idêntica; daí, a história ser dinâmica, imprevisível e impossível de ser abarcada em sua totalidade. Por isso, é louvável a afirmação do referido autor quando diz:
Somos parecidos com os conquistadores e diferentes deles; seu exemplo é instrutivo, mas jamais teremos a certeza de que não nos comportando como eles, não estaremos justamente a imitá-los.
A Espanha, hoje, parece viver muito bem, se comparada à própria realidade econômico-social da América Latina. Por isso, a leitura nos leva a concluir que a profecia de Las Casas ainda não se cumpriu. Afinal, ainda que mesmo não acreditando tão ingenuamente em sua superioridade, a civilização européia, representada por diversos países que detêm grande poderio econômico, continua desejosa de assimilar "o outro" e fazer desaparecer a alteridade exterior, espalhando para o mundo inteiro seus valores. E é também inegável o sentimento de subserviência parte de alguns segmentos ou setores chamados "Terceiro Mundo" em relação ao "Primeiro". Percebe-se isto no inconsciente coletivo de que "tudo o que é de lá é melhor": produtos, arte, música, cinema, etc. Ainda permanece arraigado no imaginário latino-americano, ainda que em forma velada, o estigma de superioridade implantado pela colonização espanhola e portuguesa a partir do século XVI.
Finalizando, pode-se ressaltar a importância das considerações feitas por Tzvetan Todorov para o momento atual. Primeiro pela evidência de que a conquista da América iniciada nos séculos XV e XVI - além de propiciar um dos maiores genocídios da história - legou-nos uma estrutura necrófila que permanece em nossa contemporaneidade ceifando as condições elementares da vida. Em segundo lugar, pelo fato do nosso tempo presente poder representar o futuro predito por Bartolomé de Las Casas em seu Testamento e, desta forma, podermos assim verificar, infelizmente, que o enredo de intolerância e agressão ao "outro" diferente continua sendo exibido no cenário da história contemporânea, quase sempre mascarado pela concepção de uma pseudo-democracia. Isso se observa principalmente quando grupos ou segmentos rejeitam a diferença do seu "semelhante", desejando condicioná-lo a valores e normas que julgam ser melhores ou mais corretos.
Sabe-se que o passado - ainda que não possa ser ressarcido em seus estigmas - ensina o presente, ou ao menos o adverte. É nesse sentido que a memória da conquista da América, trabalhada com propriedade na obra de Todorov, convoca, sobretudo os historiadores a atentarem para as descontinuidades e lacunas historiográficas que ainda restam vazias e a se dispuserem a fazer do seu trabalho não um árido discurso narrativo, e sim uma reflexão crítica que promova a vida e que, ao invés de arvorar os lábaros da conquista, denuncie a herança de seus atos.
A história dos conquistadores da América deve servir de exemplo para nós porque nos permite fazer uma reflexão, descobrir as semelhanças e também as diferenças: o conhecimento de si mesmo passa pelo conhecimento do outro. É leviano limitar essa história em condenar os maus conquistadores e lamentar pelos bons índios, como se bastasse identificar o mal para combatê-lo. Reconhecer a superioridade desses conquistadores não significa fazer seu elogio; é necessário analisar as armas da conquista, se quisermos ter a possibilidade de freá-la. Pois as conquistas não pertencem só ao passado.
Se você quiser saber mais sobre assunto e refletir sobre o que acabamos de con versar acesse o site e tenha uma boa leitura.
O ENCONTRO E A CONQUISTA EUROPÉIA
Chegamos finalmente ao nosso último tema. Não foi de propósito, mas é aqui que vamos encontrar os aspectos mais trágicos dessa conquista. ou terá sido uma dominação? Examinaremos aqui o papel da Igreja Católica nesse processo de controle do índio americano. A partir da afirmativa de Caminha de que nossos índios não tinham Rei, Fé ou Lei, vamos conhecer os passos desse processo de colonização. Os números da destruição através das doenças são assombrosos. E, finalmente, vamos encerrar com um panorama dos movimentos sociais na América latina nesse início de século XXI. Escolhemos alguns países, além do Brasil que destacaram-se nos anos de 2000 e 2001, anos emblemáticos com relação às manifestações sociais. Vamos ao trabalho gente. Atenção que as informações são fundamentais para que possam desenvolver o espírito crítico com relação ao nosso passado.
UMA GRANDE PRAGA. AS EPIDEMIAS QUE DESTRUÍRAM AS POPULAÇÕES INDÍGENAS AMERICANAS
Estamos chegando ao final do nosso módulo, iniciando o tema nº 4. Falar sobre as epidemias que destruíram milhões de vidas indígenas não só na América Espanhola, mas em toda a América é muito triste. É um dos assuntos que me incomodam pessoalmente, principalmente quando começo a lembrar do que foi feito com os índios da Bahia.
Relembrar o massacre que sofreram os indígenas americanos implica também em citar o prof. Rubin Leão de Aquino, em seu livro História das sociedades Americanas quando pergunta se a violência contra os índios foi exclusiva do espanhol. Ou será que os ingleses, portugueses, holandeses, franceses e outras sociedades conquistadoras agiram de maneira diferente, seja na América do século XVI e XVII, seja na África e na Ásia oriental nos séculos XIX e XX
Concordo com ele, tanto na pergunta quanto na resposta a que ele nos induz. Realmente, os espanhóis não foram os únicos. Basta abrir qualquer livro didático de ensino médio e ler sobre as barbaridades que foram cometidas contra os povos colonizados tanto no período colonialista quanto no neo-colonialista. Mas diria que eles foram maiores nesse processo de depopulação que se compara a um genocídio.
Gostaria de abrir nosso estudo com uma leitura de parte de um artigo da prof.ª Manuela Carneiro Cunha, especialista em História Indígena. É um texto bastante interessante e, embora ela fale sobre o índio brasileiro, o que ela escreve diz respeito à comunidade indígena americana de modo geral. Vejamos o texto:
Mortandade e Cristandade
Povos e povos indígenas desapareceram da face da terra como conseqüência do que hoje se chama, num eufemismo envergonhado, "o encontro" de sociedades do Antigo e do Novo Mundo. Esse morticínio nunca visto foi fruto de um processo complexo cujos agentes foram homens e microorganismos, mas cujos motores últimos poderiam ser reduzidos a dois: ganância e ambição, formas culturais da expansão do que se convencionou chamar o capitalismo mercantil. Motivos mesquinhos e não uma deliberada política de extermínio conseguiram esse resultado espantoso de reduzir uma população que estava na casa dos milhões em 1500 aos parcos 200 mil índios que hoje habitam o Brasil.
Os índios brasileiros fizeram grande sucesso na Corte francesa. A nobreza toda os convidava para jantares, embora torcesse o nariz para as suas esposas francesas. Um músico da Corte, Gauttier. chegou a compor uma sarabanda em que os Tupinambá tocavam com seus maracás, conforme se vê nesta gravura.
As epidemias são normalmente tidas como o principal agente da depopulação indígena. A barreira epidemiológica era, com efeito, favorável aos europeus, na América, e era-lhes desfavorável na África. Na África, os europeus morriam como moscas; aqui eram os índios que morriam: agentes patogênicos da varíola, do sarampo, da coqueluche, da catapora, do tifo, da difteria, da gripe, da peste bubônica, possivelmente a malária, provocaram no Novo Mundo o que Dobyns chamou de ''um dos maiores cataclismos biológicos do mundo". No entanto, é importante enfatizar que a falta de imunidade, devido ao seu isolamento, da população aborígine, não basta para explicar a mortandade, mesmo quando ela foi de origem patogênica. Outros fatores, tanto ecológicos quanto sociais, tais como a altitude, o clima, a densidade de população e o relativo isolamento, pesaram decisivamente. Em suma, os microorganismos não incidiram num vácuo social e político, e sim num mundo socialmente ordenado. Particularmente nefasta foi a política de concentração da população praticada por missionários e pelos órgãos oficiais, pois a alta densidade dos aldeamentos favoreceu as epidemias, sem no entanto garantir o aprovisionamento. O sarampo e a varíola entre 1562 e 1564, assolaram as aldeias da Bahia fizeram os índios morrerem tanto das doenças quanto de fome, a tal ponto que os sobreviventes preferiam vender-se como escravos do que morrer à míngua (Carneiro da Cunha, 1986). Batismo e doença, ficaram associados no espírito dos Tupinambá: é elucidativo que um dos milagres atribuídos ao suave Anchieta fosse o de ressuscitar por alguns instantes a indiozinhos mortos para lhes poder dar o batismo.
Devemos examinar a destruição dos índios no século XVI sob dois ângulos de visão: o quantitativo e o qualitativo. Na ausência de estatísticas contemporâneas, a questão do número de índios mortos poderia ser objeto de uma simples especulação, com as respostas mais contraditórias. Para dar uma idéia global, Todorov lembra que em 1500 a população da terra devia ser da ordem de 400 milhões, dos quais 80 habitavam as Américas. Em meados do século XVI, desses 80 milhões, restam 10 milhões.
A partir daí a palavra genocídio poderia ser aplicada com precisão. É uma destruição na ordem de aproximadamente 90% da população, cerca de 70 milhões de seres humanos. Nenhum dos grandes massacres ou guerras do século XX se compara a esses números. Mesmo que alguns autores queiram dissipar a chamada "lenda negra", num esforço vão de reduzir a responsabilidade dos espanhóis nesse processo, é difícil esquecer que o "negrume" existe. Não que os espanhóis sejam melhores ou piores do que outros colonizadores, acontece que foram eles que ocuparam a América e nenhum outro colonizador, antes ou depois, causou a morte de tanta gente ao mesmo tempo.
É justo afirmar que os espanhóis não empreenderam esse extermínio de forma direta e nem poderiam. Porém, podemos apontar três formas através das quais a população indígena foi drasticamente reduzida na América Espanhola:
• Por assassinato direto, durante as guerras ou fora delas: número elevado, mas relativamente pequeno; responsabilidade direta.
• Devido aos maus-tratos: números mais elevados; responsabilidade (ligeiramente) menos direta.
• Por doenças pelo "choque microbiano": a maior parte da população; responsabilidade difusa e indireta.
Interessa-me discutir com vocês a terceira forma, a "choque microbiano". As epidemias dizimavam as cidades européias da época, do mesmo modo que, numa escala menor, também dizimavam na América. Não somente os espanhóis transmitiram conscientemente este ou aquele micróbio nos índios, mas, ainda que tivessem desejado combater as epidemias, não poderiam fazê-lo de modo eficaz. Atualmente já se sabe que a população mexicana, por exemplo, também morria na ausência das epidemias, devido a subnutrição, outras doenças comuns ou à destruição da teia social tradicional. Por outro lado, essas epidemias mortíferas não podem ser consideradas como um fato puramente natural. A depopulação indígena ocorre por causa das doenças, é claro, mas os índios estavam particularmente vulneráveis a elas por estarem exauridos pelo trabalho e não gostarem mais da vida,
Os conquistadores consideram as epidemias como uma de suas armas; não conhecem os segredos da guerra bacteriológica, mas, se soubessem, não deixariam de utilizar conscientemente as doenças; pode-se também imaginar que, na maior parte das vezes, eles nada fizeram para impedir a propagação das epidemias. O fato de os índios morrerem como moscas é uma prova de que Deus está do lado dos conquistadores. Os espanhóis talvez presumissem um pouco a boa vontade divina para com eles, mas o fato era, para eles, incontestável.
Em 1523, desembarcou no México um grupo de franciscanos. Entre eles estava Motolinia que escreve uma História enumerando as dez pragas enviadas por deus para punir o México, numa clara comparação com as dez pragas do Egito. Vejamos como ele descreve a primeira praga:
"A primeira foi a praga da varíola. como os índios não conheciam o remédio para essa doença, e tem o hábito de tomar muitos banhos, estejam sãos ou doentes, e continuaram a faze-lo, mesmo atingidos pela varíola, morreram em massa, às pencas. Muitos outros morreram de fome porque, como ficaram todos doentes ao mesmo tempo, não podiam cuidar uns dos outros, e não havia ninguém para lhes dar pão ou qualquer outra coisa."
Para Motolinia, portanto, a doença não é o único responsável; são responsáveis, na mesma medida, a ignorância, a falta de cuidados, a falta de alimentos. Os espanhóis podiam, materialmente, suprimir essas outras causas de mortalidade, mas nada era mais alheio a suas intenções: por que combater uma doença, se ela foi enviada por deus para punir os descrentes. Onze anos depois, continua Motolinia, começou uma nova epidemia, de rubéola; mas foram proibidos os banhos e os doentes foram tratados; houve mortos. Mas muito menos do que da primeira vez.
Dentre as doenças que maior mortandade causaram nos índios estão as "bexigas", isto é , a varíola, a varicela e a rubéola (vindas da Europa), a febre amarela (da África) e os tipos mais letais de malária (da Europa Mediterrânea e da África). O cólera, o sarampo, a difteria, o tracoma, o tifo, a peste bubônica, a escarlatina, a disinteria amebiana.
A maior de todas as pragas trazidas pelos europeus para o continente americano foi, sem dúvida, a varíola. Foi ela que abriu o caminho para que Pizarro e Cortez tivessem seu trabalho de conquista facilitado, provocando um grande número de mortos entre os soldados dos impérios andinos. No Brasil, a varíola atinge a Bahia desde 1563, tirando a vida de três quartos da população indígena. Em 1565 o mal incendeia as aldeias de Pernambuco até ao Paulo. Mais tarde surgem no Brasil os surtos anuais de varíola que eclodem também em Portugal entre 1597 e 1616.
Os traços do trauma provocado pelas doenças transparece na mitologia indígena através da criação de quatro entidades maléficas: Taguaigba ( Fantas Ruim), Macacheira ( "O que faz a gente se perder"), Anhaga ( O que a faz a gente se perder) e o Curupurira ( o coberto de pústulas). É razoável supor que o Curupira tenha surgido após o choque microbiano nas primeiras décadas da descoberta, como representação simbólica das mortandades provocadas pelas "bexigas" e outras doenças pulmonares e outras doenças pustulentas até então desconhecidas pelos índios.
Seja lá qual tenha sido o motivo que facilitou a difusão das pestes entre os indígenas americanos, a triste verdade é que o massacre aconteceu e os europeus, espanhóis, portugueses, franceses, ingleses e outros foram os responsáveis por esse massacre, de forma direta ou indireta, em escala maior ou menor. Só nos resta agora lamentar e tentar salvar o que ainda restou desses povos nativos das Américas. Seria uma boa idéia começarmos pelo nosso quintal e cuidarmos dos nossos índios, que estão doentes, com suas crianças desnutridas morrendo de fome e seus jovens desiludidos suicidando-se por uma falta de perspectiva.
Sobre esse assunto, leiam um material interessante que fala sobre o estudo sobre a Aids entre os índios Xokléng, de Santa Catarina. São as novas "pestes" destruindo o que resta dos nossos índios. Clique aqui!
CIVILIZAÇÕES INDÍGENAS DA AMÉRICA LATINA: CONQUISTA OU DOMINAÇÃO?
Em 1992, a Espanha comemorou o V Centenário da chegada de Colombo às ilhas do Caribe. Em 2000 foi a vez do Brasil que organizou , ao longo de todo o seu território, atos comemorativos das viagens de Américo Vespúcio e Pedro Álvares Cabral ao seu litoral. Era a festa dos 500 anos, da qual nós baiano, principalmente os de Porto Seguro temos lembranças nem um pouco agradáveis. Lembram dessas cenas?
É verdade que os seres humanos precisam de rituais para trazer a público o que eles têm em comum. Mas também deveriam procurar clareza sobre o que, quem, como e por que comemoram. Recordar, comemorar, deve reforçar o juízo e o pensamento críticos.
A chegada dos europeus, em fins do século XV e começos do XVI, ao outro lado do Atlântico, representou para eles a abertura de uma suposta nova rota comercial. É dessa perspectiva que se pode falar em "descoberta", embora não se tratasse exatamente disso, nem mesmo para os europeus.
O surgimento de umas terras sem delimitações, imprecisas, que ninguém sabia como denominar, se Paraíso, Cipango (Japão), Índias, Ilhas, Terra Firme ou Novo Mundo, colocou um problema para toda a tradição científica e religiosa de Ocidente. Em um primeiro momento, aquilo era o extremo oriental da terra habitada. Cinco séculos após a denominada "descoberta" da América, os moradores dessas terras continuam sendo chamados de "índios", quando é bem sabido que a Índia e seus habitantes estão em outro continente.
Alegoría de América por Jacob van Meurs, 1671
O próprio termo "descoberta" foi e continua sendo inadequado, porque reflete a visão eurocentrista dos acontecimentos. Quando os espanhóis portugueses e italianos chegaram à América, encontraram as terras povoadas por gente que tinha que ter vindo de algum lugar. Desde a negróide brasileira "Luzia" até os espanhóis e portugueses, o espaço americano foi "descoberto" e colonizado por diferentes povos. Daí que seja necessário ter clareza sobre o que, quem, como e por que se comemora.
Em todo caso, tratou-se de uma descoberta recíproca. Para o antropólogo cubano Fernando Ortiz, o que se encontrou não foi, na verdade, um "novo mundo", mas vários mundos novos.
"Dois mundos, que se ignoravam, descobriram-se um ao outro. (...) Não foi tão somente um encontro de homens diversos, mas o inesperado contato, abraço material e espiritual de duas civilizações ou, talvez melhor dizendo, de duas culturas".
No entanto, sabe-se já quem levou a pior parte nessa descoberta recíproca. Se pensarmos no ocultamento que, durante séculos, se fez do genuinamente americano, do que poderia ser a expressão cultural do homem americano, da resistência continuada dos povoadores autóctones das terras americanas desde Enriquillo a Atahualpa, desde Caupolicán a Túpac-Amaru, desde Toro Sentado aos habitantes atuais de Quiché e Chiapas, teria que se falar, mais propriamente, em "encobrimento".
No plano concreto, cabe distinguir três aspectos do assombro e enriquecimento mútuos como resultado do encontro e do intercâmbio de culturas: o da fauna, o da flora e o da alimentação.
Do lado cristão, a presença de tanto animal estranho colocava um problema teológico: como é que Deus não deixou notícia dessas terras? De qual compartimento da arca de Noé saíram todos esses bichos? Santo Agostinho tinha embarcado na arca um casal dos que se conheciam na Europa, África e Ásia: de onde procedem, então, os da América? Como nomeá-los e descrevê-los? Como representá-los graficamente para os europeus?
O primeiro a suspeitar da capacidade da arca de Noé foi o arguto florentino Américo Vespúcio. Em uma carta endereçada a Lorenzo de Medici em 1500, diz ele o seguinte:
"que diremos da quantidade de pássaros e de suas penugens e cores e cantos, e quantas espécies e de quanta formosura: não quero me alongar nisso porque temo que não me acreditem. Quem poderá enumerar a infinitude dos animais silvestres (...) e vimos outros tantos animais que acredito que dificilmente tantas espécies coubessem na arca de Noé..."
O PROCESSO RELIGIOSO PRÉ-COLOMBIANO / DIEGO RIVERA
Como reage um recém-chegado de um outro mundo perante tamanha confusão? Ora improvisando, ora recorrendo a animais conhecidos e misturando espécies para poder ser entendido. Mais do que de acontecimentos espetaculares e heróicos, que também houve, a crônica da conquista e colonização da América está feita a partir do estupor, da surpresa, da incredulidade e, como conseqüência poética de tudo isso, da fantasia.
Trata-se de um mundo esquecido de Deus, cujos habitantes não se sabe muito bem de onde vêm, de que parte do Gênesis. O desconhecimento dos habitantes da América por parte dos europeus faz com que estes vejam uma flora e uma fauna fantásticas: plantas que comem animais, galinhas com lã em lugar de penas, sereias feias chapinhando nos manguezais, cachorros mudos, canibais cuja dieta se reflete em seu gesto deformado, etc.
Tudo é maravilhoso e assombroso: como os veados, que não se assustam com os caçadores porque os moradores autóctones os tinham por deuses e nunca lhes tinham feito qualquer dano. Em um primeiro momento, admira-se a beleza das novas terras, que são descritas em termos superlativos, hiperbólicos. Sua utilidade fica relegada a um segundo plano. Nenhum fruto é semelhante aos conhecidos na Europa. Todas as árvores são cheirosas e terapêuticas. A enorme diversidade de aves é de belíssima penugem.
Os habitantes andam nus, têm corpos proporcionados, bem firmes. As mulheres são bonitas e limpas. Essa gente não trabalha, não tem Igreja nem Lei, cada um é senhor de si mesmo, vive segundo a natureza. São mais epicureístas do que estóicos, reconhece Vespúcio. Não conhecem a propriedade privada sobre as coisas e muito menos sobre as terras. Deleitam-se pescando. Oferecem tudo o que têm, não são comerciantes. Em suma, aquilo era o Paraíso, ou o Paraíso não deveria estar muito longe dali.
A admiração se estende também aos trabalhos, ao artesanato, às construções, a algumas iguarias etc. Admira-se tudo isso, mas não se o compreende, porque não se reconhece o Outro plenamente como sujeito. Tal incompreensão subordina o saber ao poder e é utilizada com fins de exploração, para "tomar" do Outro o que ele tenha de útil.
Surgem então problemas de comunicação. Frente à ignorância da língua do Outro, exagera-se o gesto. Mas a mímica não podia resolver as dificuldades de compreensão e intercâmbio. Para os cristãos europeus, a incompreensão dos "índios" é prova suficiente de que eles estão longe de Deus e, consequentemente, são acorrentados e perdem a liberdade por não entenderem o que os europeus querem lhes ensinar através da leitura. Tudo tem de ser aprendido. A grande realidade do novo mundo é a fome. Para se alimentar, os europeus têm de submergir-se em uma botânica desconhecida e uma fauna que não poucas vezes os repugna. As dificuldades de abastecimento, os freqüentes matrimônios mistos, etc., obrigaram os recém-chegados a viver no local e adaptarem-se aos alimentos encontrados. Espanhóis e portugueses familiarizaram-se logo com os produtos locais e estabeleceram rapidamente um intercâmbio com os americanos.
Intercâmbio desigual
Nesse encontro desigual, a América deu a batata, o milho, o feijão, o tomate, o pimentão, o chocolate, a torta de caçava, o peru, etc. Em troca de tudo isso, a Europa trouxe o trigo, o açúcar, o sal, o vinagre, e também o ferro, a pólvora, a roda, o cavalo, o boi, a moeda, o salário, o livro, a escravidão, Jesus Cristo, etc. Ambas as partes saíram enriquecidas, mas uma mais do que a outra.
Do ponto de vista da saúde, os cristãos contribuíram, dentre outras coisas, com a gripe, a malária, a coqueluche e a varíola, principais causas da terrível mortandade entre os habitantes da América. Em troca, levaram para a Europa toda uma variedade de sífilis e doenças gastrointestinais.
Os habitantes locais observam os invasores desde uma perspectiva ambígua. As armas de fogo, os cavalos e os cachorros estremecem e deslumbram. Demorarão a compreender qual é o papel deles entre aqueles seres que ora caminham em estranhas casas sobre as águas, ora formando um corpo só com outro ser. Eles, que não conheciam animais domésticos, não entendem como é possível que aquelas feras, que comem ferro e carne, se mostrassem dóceis às ordens de seus donos e não mordessem outros senão eles. Não havia dúvida de que homens capazes de tamanhas façanhas eram algo divino e estavam chamados a se fazerem obedecer. Cavalos e cachorros contribuíram para derrotar os americanos e para facilitar o acesso a novos mares. Colombo já havia dito: "São bons para serem mandados e fazê-los trabalhar, semear e fazer tudo o mais que for mister.
Com a conquista da América começa a se consolidar a idéia de que o homem é o proprietário da natureza. Modifica-se assim a relação com a terra e com o espaço. Convencido de sua superioridade absoluta, a partir dos séculos XVI e XVII o europeu se converterá em predador do espaço, da natureza e de quem a habita.
Como cultura dominante, o eurocentrismo menosprezou as outras culturas e destruiu as expressões alheias. Em relação à América, a violência material e simbólica dos invasores traduziu-se na destruição do imaginário autóctone, de suas mitologias, suas culturas, seus templos, etc. E tudo isso "para o mais efetivo domínio e a mais efetiva exploração das riquezas naturais". Nisso, os conquistadores da América comportaram-se como todos os outros: destruíram livros e monumentos para erradicar a lembrança, a memória histórica, e reescrever a história à sua maneira.
Quando aquele que se considera superior não entende o comportamento do inferior, deduz que sua atitude se deve à vileza e perversidade de seu caráter.
Questionava-se que os indígenas tivessem alma. A imagem dominante, e propalada em função dos interesses da conquista, era a da nudez, de vestidos, cultura e moral, isto é, a nudez do pecado e da libertinagem sexual.
A partir desse momento, aplica-se o chicote e todo tipo de epítetos pejorativos: bárbaros, viciosos, ímpios, servos dos demônios, violadores da natureza (precisamente eles), blasfemos, idólatras, etc. O cristão europeu considera o "índio" americano como igual. Mas, trata-se de um igual mau, pecador e, portanto, merecedor de punição.
Sessenta anos após a "descoberta", a América, desde o Mississipi até o Rio da Prata e o Mapocho, estava já recoberta de cruzes: cruzes de cemitérios e de templos com suas correspondentes cidades. Os moradores dessas cidades foram dizimados. Um século e meio após a conquista, tinham desaparecido quase 100 milhões de seres humanos. Dos 25 milhões de indígenas que habitavam o México em 1500, só restava um milhão em 1600.
O poeta chileno Pablo Neruda descreve esta situação em seu Canto Geral (1948), com estas palavras:
O bispo ergueu o braço,
queimou os livros na praça
em nome de seu Deus pequeno
tornando em fumaça as velhas folhas
gastas pelo tempo escuro.
E a fumaça não volta do céu.
................................................................
Só ficavam ossos
rigidamente colocados
em forma de cruz, para maior
glória de Deus e dos homens.
Pablo Neruda, Canto geral, 6.e. São Paulo, Difel. 1984, pp.50 e 45, respectivamente. (Tradução de Paulo Mendes Campos.)
Quando os europeus chegaram á América milhões de índios viviam aqui. Na sua busca incessante por terras e riquezas os colonizadores europeus, todos eles e não apenas os espanhóis não hesitaram em transformar os nativos a trabalhar como escravos, apossar-se de suas terras e suprimir aqueles que se revoltassem contra o domínio europeu.
A destruição foi terrível. As armas de ferro e fogo, espadas e canhões, os cães treinados para estraçalhar seres humanos e a ferocidade dos guerreiros europeus garantiram a vitória sobre as nações indígenas.
É de se perguntar como foi que um punhado de espanhóis conseguiu submeter os incas e astecas? É claro que as armas ajudaram, mas além delas foi fundamental o apoio de inúmeros soldados índios. Os incas e os astecas formavam impérios que dominavam vários outros povos indígenas. Esses povos se aliaram aos espanhóis, acreditando que, ajudando-os a vencer incas e astecas, ganhariam, por sua vez, a sonhada liberdade. Foi uma triste ilusão. Além de serem vencidos e escravizados, mais uma vez, ainda tiveram o acréscimo das doenças, contra as quais eles não desenvolveram anticorpos. Morreram de sarampo e varíola. As guerras arruinaram suas aldeias e destruíram suas plantações. O resultado foi o massacre de milhões de índios.
Para tentar entender toda essa destruição é bom reconhecer que nenhum europeu nasce um assassino cruel e destruidor de civilizações. Precisamos entender que eles foram criados numa sociedade feudal, que admirava os guerreiros, que utilizava a força militar para obter riquezas, honras e respeito. Sentiam-se cruzados nas luta contra os índios pagãos, principalmente quando esses índios "infiéis" possuíam toneladas de objetos de ouro e pedras preciosas.
Lamentavelmente, alguns membros do clero católico pouco fizeram para evitar as atrocidades. De certo modo acreditavam que os índios estavam pagando pelos pecados e que aquelas seriam as dores do parto do nascimento da nova fé. Ainda bem que a maioria não pensava assim. Basta lembrarmos o nosso já conhecido Bartolomeu de Lãs Casas que dedicou toda a sua vida a combater os crimes dos espanhóis contra os índios das Américas. São dele algumas narrativas trágicas como a quem conta as apostas feitas pelos soldados espanhóis sobre o sexo da criança na barriga da mãe grávida e depois iam verificar rasgando o ventre da mulher com uma espada.
A violência dos conquistadores não foi apenas física. Foi também cultural. Prédios, artefato, manuscritos antigos dos índios, tudo foi destruído e está perdido para sempre. O dominador impôs à força sua língua, seus costumes e sua religião. Os índios foram obrigados a trabalhar como animais. Despojados de tudo, humilhados e ofendidos ate o fundo da alma, eles nos deixaram como herdeiros de seu sofrimento e esperança.
Não podemos esquecer de que toda essa violência foi acompanhada de roubos e pilhagens das riquezas da América. As classes dominantes da Europa ganharam muito com a conquista. Toneladas de ouro e prata sustentaram palácios na Europa. Fica então a pergunta: os europeus estariam tão desenvolvidos hoje se não tivessem se aproveitado das riquezas da América? Estaríamos hoje tão pobres se não tivéssemos sido tão roubados e massacrados? Talvez essa resposta não chegue tão cedo. Ela já leva quinhentos anos em elaboração.
Visão dos vencidos
Pouco se ouviu a voz dos vencidos, a daqueles que sofreram a conquista e a destruição, a colonização e o imperialismo. Suas reclamações e imagens, embora sempre as houvesse, foram silenciadas e encobertas. Pouco tempo depois do desembarque inicial já circulavam por toda a América presságios e imagens de uns homens barbados que vinham possuir a terra.
Os americanos percebem e explicam a conquista como um fato sobrenatural. Assim, os incas acreditam na natureza divina dos invasores, tanto quanto os astecas e os maias, embora estes últimos também falem em "estrangeiros". A imagem do tempo que têm é a de uma roda, isto é, uma concepção cíclica, enquanto que a cristã é uma seta, a progressão linear em direção à felicidade última, a utopia celeste ou terrena.
Os americanos percebem muito cedo que os europeus cristãos querem submeter suas terras e fazê-los trabalhar para eles. As crônicas e relatos "índios" descrevem os cristãos como gente má, que usurpa terras e casas e semeia a discórdia e a dor. A reação dos conquistados contém um dramatismo comparável ao das grandes epopéias clássicas.
Os rostos e os corações dos invasores, que chegam montados em uma espécie de veados, só se iluminam e alegram quando se lhes oferece ouro. Esses "selvagens" tomam o ouro dos deuses e o fundem em barras.
Os vencidos chamam os conquistadores de "filhos do sol", macacos, porcos famintos, pequenas bestas, covardes e assim por diante. Os livros maias de Chilam Balam os descrevem com estas palavras:
"Llegaron los extranjeros (...) los bárbaros, los hijos del sol. (...) ¡Ay! ¡Entristeceos, por que llegaron! (...) Vienen los cobardes (...), los blancos hijos del cielo (...) ¡Ay! ¡Entristezcámonos porque vinieron! (...) los grandes amontonadores de piedras (...), los falsos, los opresores de la tierra que estallan fuego al extremo de sus brazos, los embozados (...) Será la muerte de los grandes linajes (...) Perdida será la ciencia, la sabiduría verdadera". (clique aqui para ver a tradução)
Os conquistados não compreendem as idéias nem o comportamento dos conquistadores. As seguintes palavras do cacique Quilalebo podem resumir a reação de todos os povoadores originários da América:
¿Por qué los españoles nos tienen por tan malos como dicen que somos? Pues en las acciones y en sus tratos se reconoce que son ellos de peores naturales y crueles condiciones, pues a los cautivos los tratan como a perros, los tienen con cormas, con cadenas y grillos, metidos en una mazmorra, y en un continuo trabajo, mal comidos y peor vestidos, y como a caballos los hierran en las caras quemándolos con fuego.
Si acá hiciésemos eso con vosotros... No habemos querido imitaros en esto, por parecernos crueldad terrible y no digna de pechos generosos ni de valientes soldados...
Y el quemarles las caras con hierros ardiendo y otros instrumentos, capitán, ¿por qué lo hacen?... Nosotros, ¿qué es lo que hacemos?... Defender nuestras tierras, nuestra amada libertad y nuestros hijos y mujeres.
(clique aqui para ver a tradução)
Surge assim o que se convencionou chamar "dor do índio", em cujos rostos e manifestações culturais como a música quíchua, por exemplo, pode-se perceber a expressão de uma dor profunda, considerada como típica da raça e, portanto, incurável, uma dor cósmica.
Aparece, então, a solidão, mas não a solidão do indivíduo, senão a dos povos vencidos, não derrotados ainda, de todos os cantos da América.
Encerraremos o nosso tópico com a pergunta que lhe serviu de título: Civilizações indígenas da América Latina: conquista ou dominação? Agora a resposta é sua. Depois de tantas páginas e de tanta discussão a respeito do que foi a chegada, conquista e dominação dos europeus na América, acredito que você já possa pelo menos iniciar uma resposta, pelo menos para você mesmo.
Pra ajudar na sua análise pessoal, aconselho a leitura do trabalho descrito no site: Marcha Brasil Outros 500.
É um site que descreve o que aconteceu nas comemorações dos 500 anos da descoberta do Brasil e onde vocês lerão o documento redigido pela Conferência Indígena que aconteceu em Porto Seguro no mesmo período das comemorações.
SEM REI, SEM LEI E SEM FÉ
"A lingua deste gentio toda pela Costa he huma: carece de tres letras, não se acha nella F, nem L, nem R, cousa digna de espanto, porque assi não têm Fé, nem Lei, nem Rei; e desta maneira vivem sem Justiça e desordenadamente."
Pero de Magalhães Gândavo / Tratado da terra do Brasil
Um dos aspectos mais importantes a se reconhecer na questão da conquista e dominação dos índios americanos refere-se à catequese. A catequese é entendida como toda ação pastoral da igreja: doutrinação, práticas devocionais, o próprio comportamento dos cristãos. Gostaria de discutir com vocês como a catequese sempre esteve a serviço do rei, seja da Espanha, seja de Portugal. A religião, nesse momento histórico, era uma expressão cultural, de necessidade, e a catequese dos índios atendia a essa característica, objetivando, com toda certeza, europeíza-los. Isso implicava em arranjar para eles um lugar dentro da sociedade européia. Aparentemente, os índios não tinham a capacidade de distinguir a diferença dos diversos gestos sociais. Recebiam o impacto da colonização como uma totalidade que os retirava de seu sossego e os colocava em nova situação, exigindo-lhes trabalho braçal, participação nas guerras, mudanças de costumes, adesão ao cristianismo.
Trazendo essa situação para o caso específico do índio brasileiro, podemos afirmar que no contexto português quinhentista de unidade originária entre a fé e o poder político – este se identificando também com a direção dos negócios econômicos – compreende-se que a pregação da religião tenha feito parte de um conjunto de recursos usados para a consecução dos objetivos do governo português.
A catequese serviu de instrumento para a imposição dos usos e costumes portugueses. O índio, em todos os sentidos, sofreu a ação: teve voz passiva porque as forças adversas eram incomparavelmente maiores. Ele sabia, na carne, que costumes novos representavam a destruição da sua tradição.
O Jesuíta, encarregado do ministério da salvação junto aos índios, veio mandado pelo príncipe, irmanado aos homens do governo, aos projetos do governo à ideologia do governo. Sua salvação vinha do alto, em duas instancias: a divina e a régia / real. A crença na indissociabilidade das duas moldou os resultados de todo o trabalho dos jesuítas.
Em seu livro Sem fé, sem lei ou rei: Brasil 1500-1532, Giucci (GIUCCI, Guillermo. Sem fé, lei ou rei (Brasil, 1500-1532). Rio de Janeiro: Rocco, 1993) uma nova interpretação do primeiro encontro dos portugueses com os tupiniquins referido na Carta de Pero Vaz de Caminha. Diante das visões do paraíso que parecem dar uma aura beatifica ao momento histórico considerado pela tradição como a fundação mítica do Brasil, com os índios adorando a cruz durante a missa, Giucci conjetura uma cena simples e potente: os índios não teriam adorando a cruz como símbolo religioso, mas como objeto assombroso pela sua fatura tecnológica. O assombro seria um tipo de relação básica com a matéria e seu domínio pelos homens através da tecnologia, ou seja, o assombro aconteceria no momento em que os índios vêem as ferramentas de metal dos portugueses para trabalhar a madeira, e sua utilização efetiva.
O primeiro documento a confirmar a afirmação de Caminha de que não existem normas repressivas entre os indígenas, e que os selvagens não possuem nem rei, nem Lei e nem Fé, é a Ata Notarial de Valentim Fernandes. Datada de 20 de maio de 1503, a Ata contém a informação dada por dois membros da armada de Cabral que desembarcaram (ou foram desembarcados) em Vera Cruz, onde viveram durante 20 meses até ser recolhidos por outra armada portuguesa. No documento, reitera-se de modo condensado a informação de Américo Vespúcio na Carta Mundus Novus. Nele reafirma-se a existência de antropofagia e a ausência de fé, religião, idolatria e sujeição a leis, e tal insistência prenuncia o futuro tenso das relações entre portugueses e indígenas brasileiros.
A conseqüência mais visível d estreita relação entre poder temporal e o religioso é a formação de uma cumplicidade entre o projeto colonizador da monarquia portuguesa e o projeto missionário gerado no espírito da reforma tridentina, muito embora se constate a ausência de qualquer prelado que representasse o mundo colonial nas sessões do Concilio Tridentino que se desenrolava na Europa entre os anos de 1545 a 1563, mesmo já tendo sido criado o arcebispado da Bahia.
Roma só passou a ocupar-se com a evangelização colonial no século XVII, quando busca restringir a ação do Padroado, criando em 1622 a Congregação para a Propagação da Fé.
Na colonização do Brasil o confronto entre culturas e técnicas foi inevitável, a empresa militar não foi capaz de sozinha controlar a insubmissão dos naturais da terra e a sua organização tribal, o que se configurou sério empecilho a empresa mercantilista colonizadora.
Apesar da superioridade tecnológica dos europeus, levar a termo tal empresa requeria o uso de instrumentos de coerção, violentos ou sutis, capazes, entretanto, de promover a desejada docilização e pacificação dos gentios, de forma a incorporá-los ao processo produtivo requerido pelos colonizadores.
A ideologização do projeto colonial consubstanciou-se na ação missionária e evangelizadora exercida pelas ordens religiosas junto aos grupos indígenas, sendo obrigatório concordar-se com o que expressa Medeiros quando ao analisar o papel da Igreja na Colônia, escreve:
"... a Igreja ajudou a enorme massa de desprovidos de bens materiais a pensar como o desejavam os donos do poder, e não como requeria a sua condição material no processo produtivo."
MEDEIROS, Maria do Céu. Os Oratorianos de Pernambuco , uma congregação a serviço do Estado. Recife: UFPE, Dissertação apresentada ao CMH/CFCH, 1981 p. 34
À Ordem dos Jesuítas, como integrante do projeto colonial, cuja primeira leva chegou ao Brasil chefiada pelo padre Manuel da Nóbrega em 1549, coube a tarefa inicial de organizar o catolicismo no Brasil,
Os Inacianos, com a finalidade de imprimir maior eficácia a sua atuação junto as populações ameríndias, e a princípio protege-las das investidas dos colonos em busca de mão - de - obra, fizeram a opção pela circunscrição de espaços próprios ao agregamento dos índios cristianizados em aldeamentos, tudo incentivado e sustentado pelo Padroado Régio que ocupou, antecipando-se a Igreja romana, o espaço vago deixado por esta.
A presença de jesuítas como o Padre Manoel da Nóbrega nas terras brasileiras, tinha por objetivo conquistar súditos para um estado em expansão e fiéis para a Igreja envolvida em uma enorme crise. Mas nem sempre foi possível atender a essas duas exigências.
Se ao estado cabia organizar a economia e a administração da colônia, à Igreja coube o papel de agente educacional e cultural. E nisso, os jesuítas foram rápidos e eficientes. quinze dias após sua chegada, já funcionava a primeira escola de ler e escrever. Era o passo inicial para a criação de uma rede de ensino formada por escolas, colégios e seminários.
A Igreja católica também teve um papel importante na justificação da escravidão africana na colônia. Um argumento corrente no século XVII, desenvolvido pelo jesuíta Antonio Vieira, era o de que a escravidão foi a forma criada pela Divina Providência para retirar os negros do pecado, na África, e leva-los até a palavra de Deus, nas terras brasileiras.
A escravidão seria, assim, um "meio de salvação" da alma do africano. Esse raciocínio, que deve ser entendido como fruto de uma determinada época histórica, favoreceu a aceitação da escravidão como uma prática natural na colônia.
A sociedade que foi sendo formada na América sofreu uma forte influência do Estado e da igreja. o primeiro atuou fundamentalmente na organização da economia e da administração. Sua preocupação básica foi criar e impulsionar atividades econômicas que garantissem a colonização. Com o passar dos tempos, o estado foi se tornando mais presente e mais importante em outras regiões coloniais, mas sempre como cobrador de impostos e regulador.
As questões de natureza educacional e cultural ficaram a cargo da igreja católica. Tendo a frente os jesuítas, e monopolizando o ensino, a Igreja atuou com desenvoltura em praticamente toda a América. Seu trabalho evangelizador nas missões contribuiu para a formação de uma sociedade um pouco mais homogênea do ponto de vista lingüístico e cultural. Para isso, foi fundamental sua atuação na destribalização e descaracterização das comunidades indígenas.
Gostaríamos de encerrar transcrevendo um trecho escrito pelo historiador Boris Fausto:
Como tinha um instrumento em suas mãos, a educação das pessoas, o "controle das almas", na vida diária, a igreja era um instrumento muito eficaz para veicular a idéia geral de obediência e, em especial, a de obediência ao poder do Estado. Mas o papel do Estado não se resumia isso. Ela estava presente na vida e na morte. O ingresso na comunidade, a partida sem pecado deste "vale de lágrimas" dependiam de atos monopolizados pela Igreja: o batismo, a crisma, o casamento religioso, a confissão, extrema-unção na hora da morte, o enterro em um cemitério designado pela significativa expressão "campo santo".
Aumente seus conhecimentos sobre o papel da Igreja na América Latina e, principalmente, na catequese indígena, acessando:
Conselho Indigenista Missionário
A AMÉRICA LATINA E AS LUTAS SOCIAIS NA ATUALIDADE
Apesar de sua independência política, conquistada a parir do século XIX, os países da América latina mantiveram laços de dependência econômica com as grandes potências capitalistas mundiais, inicialmente a Inglaterra e posteriormente os Estados Unidos.
As forças tradicionais, defensoras do vinculo político-econõmico com os grandes centros imperialistas, não poucas vezes tem se chocado com as forças reformistas e nacionalistas e também com as de extrema esquerda, cujo anseio pela democratização e autonomia nacionais torna imperativa a reformulação das estruturas vigentes. Por isso, ditaduras militares, governos pró-libertação, movimentos reformistas, revolucionários e guerrilheiros tem caracterizado o quadro político da América latina desde o século XIX.
Quase todas as antigas colônias da América continuam hoje com uma economia dependente. De um modo geral, setores das classes dominantes têm seus interesses fortemente ligados ao capital estrangeiro, mantendo os diferentes países como simples fornecedores de matérias-primas.
Diante do exposto, faremos uma reflexão acerca dos conflitos de alguns países da América Latina, apontando seus protagonistas, as formas de protestos, a posição do governo frente a esses conflitos, a pauta de reivindicação de cada um deles, algumas semelhanças e diferenças entre eles e, finalmente, suas configurações no contexto das sociedades latino-americanas. Usaremos como marco cronológico os anos de 2000 e 2001, nos quais os movimentos sociais na América Latina tiveram uma grande expansão.Os países abordados são Brasil, Chile, México, Bolívia, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Equador, Peru e Argentina.
BRASIL - Analisando os conflitos sociais no Brasil, observa-se que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) foi o movimento social mais relevante e de maior repercussão.
A luta por terra é a principal via de ação desse movimento. Os conflitos e protestos envolvem não só a reivindicação por terra, mas também em relação ao trabalho, já que o acesso à terra é uma forma de sobrevivência para os trabalhadores rurais.
O MST luta pela reforma agrária, levantando outras bandeiras como a liberação de integrantes do movimento presos durante manifestações, pela condenação dos responsáveis pelo massacre de Eldorado dos Carajás - onde foram mortos 19 sem-terra num confronto com a polícia -, por mais fundos para assentamentos, liberação de crédito para o Programa Nacional de Agricultura Familiar, protestando também contra as injustiças sociais, o desemprego e a corrupção.
Em abril de 2000, o MST juntou-se a outros movimentos sociais para protestar contra as comemorações do Governo pelos 500 anos do descobrimento do Brasil, atestando seu caráter de movimento social sintonizado com outras questões que não envolvem somente a terra.
O mesmo ocorreu durante o Fórum Social Mundial, realizado em Janeiro de 2001, no sul do Brasil, que constituiu uma experiência de agrupamento de diferentes organizações e movimentos sociais que conformam o movimento contra o neoliberalismo e a globalização. Embora não possa ser considerado um conflito propriamente dito, destaca-se a experiência do Fórum pelo fato de ser gerador de situações conflituosas, como a destruição de plantações de soja transgênica por integrantes do MST juntamente com o ativista francês José Bové.
Entretanto, mesmo com todas as adversidades impostas pela hegemonia neoliberal em países da América Latina, vários focos de conflitos têm se manifestado nesse âmbito. , seja ele no campo exemplificado pela atuação do MST, reivindicando o direito ao trabalho, seja na cidade, onde trabalhadores exigem melhores condições de trabalho, salário e emprego, que lhes garantam uma vida digna para eles e suas famílias e à população em geral.
No Brasil, os conflitos envolvendo a educação pública e o funcionalismo público também mereceram destaques nesse período, onde em várias partes do país ocorreram manifestações envolvendo professores, estudantes e funcionários administrativos. As exigências variam de estado para estado, tendo como ponto em comum a luta contra a política de educação do governo federal e a defesa de uma educação pública, gratuita e de qualidade para todos os cidadãos.
Por fim, outra manifestação relevante foi o Grito dos Excluídos, realizado em setembro de 2000 e em 2001, quando setores da Igreja Católica, apoiados por partidos políticos de esquerda e organizações de movimentos populares, realizaram protestos contra os problemas sociais em todo país, reunindo aproximadamente cem mil pessoas.
CHILE - O maior peso de conflitos no Chile centrou-se nos protestos indígenas, contribuindo para consolidar a presença do setor camponês-indígena como um dos atores principais do conflito social chileno. Eles exigem o reconhecimento de direitos para seus povos, a devolução de terras, a preservação de sua cultura e a retirada das empresas florestais de suas terras.
Já os movimentos sociais urbanos, que lutam pelos direitos humanos, surgiram com força após o Caso Pinochet, lembrando a ditadura militar, protestando pelo regresso do senador vitalício ao país e exigindo sua condenação. Houve diversas reações à atitude do governo e dos parlamentares que aceitaram o segredo de identidade dos informantes sobre o paradeiro dos desaparecidos.
No Chile, portanto, os protestos organizados por diversas entidades defensoras dos direitos humanos mantêm viva a memória desse momento político do país. O país também tem sido palco de manifestações contra a globalização e o neoliberalismo, como mostrou a reunião anual do BID, em março de 2001.
BOLÍVIA - Os conflitos no setor camponês-indígena questionaram, principalmente, os planos de ajuste neoliberal, desembocando em situações de crises políticas que confrontaram a legitimidade do governo de seu país.
A Bolívia se viu sacudida em abril de 2001 por um violento conflito social que adquiriu dimensões políticas, chegando a pedir a renúncia do presidente, formado por diversos setores sociais e políticos.
A intensificação das lutas dos setores da saúde pública, camponeses, cocaleros, a Coordenadoria de Defesa da Água de Cochabamba (Guerra del Água), entre outros, mostraram a insatisfação desses movimentos com a política neoliberal aplicada pelo governo.
Neste período se produziu um aprofundamento e radicalização nos conflitos marcados pela união de diversos setores (sindicatos, campesinatos e urbanos) em torno de diversas reivindicações. As demandas que acompanharam a Marcha de Cochabamba a La Paz são uma mostra da convergência setorial e pluralidade reivindicativa na oposição à política econômica.
As inúmeras manifestações setoriais, de diversos pontos do país, que chegaram a La Paz foram ferozmente reprimidas pelas forcas armadas bolivianas, e resultaram na morte, prisão e processamento de líderes sociais na Bolívia.
Nos casos do México e Uruguai, as respostas à recessão econômica aguçaram as tensões sociais e políticas provocadas pelo processo de concentração de riqueza, acentuando inclusive, as tensões nos setores econômicos dominantes beneficiados pelas políticas neoliberais.
MÉXICO - ao Movimento Zapatista, agregaram-se vários protestos, nos outros setores sociais (sindicatos, movimentos urbanos, movimento estudantil, etc.) que foram de grande importância. Isso aponta um aumento de ações multi-setoriais, como mostra a ampla participação desses setores e da sociedade civil na Caravana Zapatista.
A Marcha pela Dignidade Indígena foi, sem dúvida, o evento mais importante do panorama social e político mexicano. Além de reivindicar o reconhecimento dos direitos e da cultura indígena, foi também uma forma de mostrar a incapacidade dos governos de orientação neoliberal em dar uma solução democrática ao povo mexicano. O Exército Zapatista de Libertação Nacional é um movimento social da América Latina que vem resistindo aos princípios da política neoliberal.
Os Zapatistas trazem com eles uma declaração de guerra impressa contra o governo mexicano e pela libertação do povo de Chiapas e do México. As questões levantadas pelos zapatistas, NAFTA, pobreza, direito à terra, exploração dos povos indígenas e camponesas, preservação ambiental, direitos das mulheres, fim da violência, paz, democracia e justiça, tornam-se, cada vez mais, matérias de discussão. Assuntos como a democratização do sistema político mexicano, o que inicialmente era visto como fantasia, tornaram-se tão centrais ao discurso público que chegaram ao ponto de dominar a política mexicana para desespero dos que estavam no poder.
Dentro desse contexto, os zapatistas foram condenados por alguns e admirados por muitos, repudiados pelos que detêm o poder e tratados com seriedade pelos que estudavam seus comunicados. Acenderam-se paixões que levaram pessoas a abraçarem a causa do movimento. Esse explosivo movimento de solidariedade certamente ajudou os zapatistas a romperem com a tentativa do governo de isolá-los, conseguindo levar a outros espaços suas idéias e seu programa, rumo a uma revolução econômica, política e social. Além disso, suas reivindicações – democracia, justiça e liberdade – não são nada radicais, o que explica parte da popularidade conquistada.
No zapatismo, a concepção política de sociedade civil e do papel que esta tem no movimento social é bastante original. Sendo assim, a sociedade civil, enquanto sujeito histórico deve exigir mudanças. Diferentemente de outros movimentos revolucionários, não se trata de tomar o poder e fazer o uso da força, e sim a abolição das relações de poder e uso pleno da democracia, no qual o poder da sociedade não deve se impor, mas se construir. Desta forma, longe de lutar pela tomada de poder, propõe uma transformação das relações jurídicas e sociais, buscando uma democracia participativa e representativa não excludente, que se dê no seio da própria sociedade civil e dos povos indígenas.
URUGUAI - houve uma maior concentração de protestos de trabalhadores e sindicatos acerca de maiores direitos trabalhistas e melhores salários, desemprego e precariedade do trabalho.
Prevalecem os conflitos no campo da educação, demandando um maior orçamento por parte do governo para essa área.
PARAGUAI - Podemos destacar no a criação do Congresso Popular 2000, em fevereiro de 2000, composto por diversas organizações sociais para discutir as principais demandas sociais advindas da política econômica do governo, como as privatizações, e também reivindicar o fim das prisões indevidas de camponeses e o avanço da reforma agrária no país. Nesse período, também foram registrados conflitos de camponeses indígenas com a polícia, quando estes reivindicavam a desapropriação de terras. Destacam-se também conflitos envolvendo profissionais da área de saúde pública, que vem sofrendo cortes substanciais de verba, bem como manifestações de docentes contra a ausência de uma política de educação voltada para uma educação pública, gratuita e de qualidade.
EQUADOR - Assim como no Paraguai, verificou-se a instauração de um Parlamento do Povo que reuniu movimentos sociais e setores da sociedade civil organizada para discutir as conseqüências sociais da política econômica adotada pelo governo envolvendo dolarização de economia e privatizações.
Na Colômbia, podemos destacar quatro conflitos significativos nos primeiros meses de 2000, que são os conflitos envolvendo, de um lado, as Forças Armadas e os paramilitares de direita e, de outro, os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia e do Exército de Libertação Nacional; a manifestação de estudantes universitários e professores; protestos de comunidades indígenas por melhores condições de vida e reivindicações de camponeses por uma reforma agrária que proporcione terra, educação e tecnologia.
PERU - esse período foi de suma importância não só no registro dos conflitos sociais - onde se destacam protestos contra a privatização dos portos, paralisação de caminhoneiros e manifestações de camponeses e indígenas. Esta atuação consistiu, principalmente, no contexto político, com intensos protestos em todo o país, realizados por trabalhadores, partidos políticos, sindicatos e organizações de base, movimento de mulheres que denunciavam a corrupção no governo Fujimori exigindo sua renúncia e a de seu assessor presidencial Vladimiro Montesinos, destituição da cúpula militar, além do fim da imunidade parlamentar a congressistas corruptos e a realização de novas eleições gerais.
ARGENTINA - No primeiro quadrimestre de 2001, um dos meios de protesto mais utilizados na Argentina foram os chamados cortes onde os manifestantes bloqueavam avenidas, ruas e ferrovias, chegando a um total de 204 - 39 em janeiro, 35 em fevereiro, 80 em março e 50 em abril. Na capital, esses protestos apresentavam um número maciço de piqueteiros e se prolongavam por vários dias, chegando até dez dias alguns deles, envolvendo desempregados e suas famílias reivindicando entrega de gêneros alimentícios de primeira necessidade de material escolar e a assinatura de planos de trabalho para frear o desemprego crescente no país.
Devido à intensificação de todos os tipos de manifestações populares, em especial na capital, em reflexo ao agravamento da crise econômica, a Argentina foi destaque na mídia internacional.
Considerações Finais
Verifica-se que o ciclo de protestos sociais aqui contidos, assim como os conflitos e ações desenvolvidas pelos mais diversos atores, se inscrevem na crise política resultado do fortalecimento do neoliberalismo nessas regiões. Nesse caso, esse processo é acompanhado por um aumento de medidas repressivas e de uma criminalização das ações em protesto.
A evolução da conflitividade social na América Latina nesse período mostra a persistência de uma inevitável situação de confronto.
Os protestos camponeses-indígenas, como a Marcha da Dignidade Indígena iniciada pelos Zapatistas (em fevereiro de 2001) no México, as lutas desenvolvidas pela Coordenadoria de Cochabamba na Bolívia transcendem as reivindicações setoriais, para questionar tanto a política econômica em geral como a legitimidade política do governo.
Sem dúvida, estes importantes conflitos, somados às manifestações do MST no Brasil, apontam a presença da população do campo e dos indígenas como atores principais da conflitividade recente nessa latitude.
Houve, também, um importante crescimento de ações protagonizadas pelos movimentos urbanos. Porém, os mesmos aparecem reduzidos em sua maioria, a um território social reivindicativo ou setorial próprio. Destacaram-se as ações protagonizadas pelos assalariados do setor público, em particular por professores e trabalhadores administrativos, tendo como "aliado" o movimento estudantil, o que demonstra a ausência de uma política educacional voltada para o privilégio de uma educação pública, gratuita e de qualidade na América Latina.
O receituário único imposto aos países latino-americanos pelo Consenso de Washington (1981) sem levar em conta suas particularidades sociais, econômicas e culturais trouxeram fortes impactos sobre essas sociedades, impactos esses que vão determinar o elevado grau de conflitividade nesses países.
Gostaria de encerrar nosso curso com essa belíssima página escrita por Emir Sader. Leiam com carinho.
América Latina, adios?
2002-08-05/ Emir Sader
A América Latina nasceu para o mundo no século XX. Antes disso, pouco ou quase nada do continente tinha importância no mundo. No começo do século passado, alguns grandes acontecimentos fizeram o mundo "descobrir" a América Latina e ela mesma se descobrir a si mesma. O primeiro foi o massacre da Escola Santa Maria de Iquique, no norte do Chile, em que milhares de trabalhadores mineiros foram fuzilados diretamente do navio em que estavam os "negociadores" do governo chileno diante da greve dos trabalhadores. As ruas de Iquique jorravam sangue pelas calçadas, o governo demonstrava que não podia suportar a paralização da principal atividade econômica do país, controlada por empresas norte-americanas.
Poucos anos depois, explodiu a maior revolução social do continente até então - a revolução mexicana, de Zapata e Pancho Villa, revolução que deu a pauta dos movimentos populares durante meio século na América Latina, seu caráter nacionalista, agrário e antimperialista. Ainda na segunda década do século, em Córdoba, na Argentina, surgiu a primeira reforma universitária, um movimento que colocava o tema da democratização da educação e da incorporação do movimento estudantil às mobilizações sociais que viriam a se generalizar nas décadas seguintes.
O continente mostrava que o novo século seria um século de revoluções e de contra-revoluções. Foi o século em que países do continente protagonizaram um dos mais importantes movimentos históricos dentro do capitalismo - a industrialização de países da periferia, rompendo a dicotomia que identificava países ricos com a industrialização e países da periferia com economias agrárias. Foi também o período do surgimento de projetos nacionais, de economias voltadas para o mercado interno, da construção de lideranças e de partidos populares com ideologias de raízes nacionais. Também de movimentos revolucionários na esteira da revolução mexicana, como a salvadorenha de Farabundo Martí, a nicaraguense de Augusto Cesar Sandino, a boliviana de 1952, até que eclodiu a mais importante de todas - a revolução cubana, de Fidel Castro e Che Guevara.
Paralelamente, a cultura latino-americana se afirmou com perfil próprio, conquistando espaço própria no cenário mundial. Prêmios Nobel de literatura, como os da poetisa chilena Gabriela Mistral, do romancista guatemalteco Miguel Angel Asturias prenunciavam o surgimento do chamado "boom" latino-americano, que além de Gabriel Garcia Marquez, Júlio Cortazar, Mario Vargas Llosa, revelou ao mundo Jorge Luis Borges, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, entre tantos outros, além da afirmação da pintura latino-americana.
Essa grande aventura latino-americana no século XX desembocou na virada liberal das duas últimas décadas do século e desta entrada do novo século. Nunca um modelo se generalizou tanto no continente e nunca um modelo fracassou tão estrepitosamente na história do continente como o modelo neoliberal. Os resultados estão à mostra: regressão nos graus de industrialização avançados, debilitamento geral dos sistemas políticos, polarização e exclusão social como nunca a América Latina havia conhecido, desemprego recorde, entrega do destino dos países do continente ao Fundo Monetário Internacional.
Decadência que se estende a vários outros planos, como o da penetração da influência cultural norte-americana como nunca havia existido, mercantilização da vida e da mentalidade de amplos estratos da população, enfraquecimento dos projetos com raiz nos países e na realidade continental, violência cotidiana, desestruturação social e comunitária, empobrecimento da educação e da saúde públicas, crises generalizadas e extensão do desalento e da baixa auto-estima.
A América Latina, nascida para o mundo no século XX, morreu neste começo de século XXI? Se continuar a se submeter ao FMI e aos bancos internacionais, se não afirmar sua identidade e integração diante da agressiva política dos EUA, se não renovar seus projetos e lideranças, se não fomentar sua cultura e todas suas formas de expressão popular, teremos regredido ao que fomos até o século XIX. Acabou a fase dos mandatários neoliberais, tipo Menem, Fujimori, FHC. Quem os substituirá? As eleições próximas do Brasil e da Argentina podem ser esse marco de renovação ou um passo a mais no caminho da tumba.
Se você quiser saber mais sobre esse assunto e sobre a situação da América latina no século XX, acesse: América Latina: 100 anos de opressão e
utopia revolucionária - Luiz Fernando B. Belatto
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